A família que Deus escolheu



Outro dia, reli os capítulos do Gênesis que narram o chamado de Abraão. Conhecia a história, desde a infância: um velho de barba branca, uma mulher que engravida quando já perdera a esperança, tendas armadas no deserto, incontáveis estrelas sobre a cabeça de um homem escolhido por Deus. Foi preciso avançar devagar, prestando atenção aos gestos menores, para perceber que Abraão entra na narrativa sem qualquer grandeza aparente. Ele aparece no fim de uma genealogia, entre nomes que hoje pouco significam para a maioria dos leitores, e então ouve uma voz ordenando que abandone sua terra, sua parentela e a casa de seu pai. Deve seguir em direção a um lugar que ainda lhe será mostrado. Deus lhe promete uma terra e uma descendência. Abraão parte.

Séculos de interpretação cobriram esse gesto com uma camada tão espessa de reverência que já não conseguimos sentir o medo contido nele. Abraão não recebeu um mapa, tampouco uma explicação. Deixou para trás as referências que organizavam sua existência e levou consigo Sara, o sobrinho Ló, seus servos, seus animais e tudo o que conseguira reunir. A voz prometia o futuro, mas a estrada começava naquele instante, debaixo dos pés de pessoas que precisavam comer, encontrar água, proteger os rebanhos e atravessar territórios ocupados por outros povos. A experiência religiosa nasceu misturada à poeira.

Pouco depois, uma fome obriga a família a descer ao Egito. É nesse momento que ouvimos uma das primeiras falas extensas de Abraão. O patriarca olha para Sara, reconhece a beleza da mulher e teme que os egípcios o matem para ficar com ela. Pede então que se apresente como sua irmã. Dessa maneira, ele será bem tratado e conservará a vida. O plano funciona. Sara é levada para a casa do faraó, enquanto Abraão recebe ovelhas, bois, jumentos, servos e servas. Deus intervém, o faraó descobre o engano e devolve a mulher ao marido.

Durante muito tempo, ouvi essa passagem acompanhada por explicações destinadas a absolver Abraão. Algumas procuram demonstrar que Sara era de fato sua irmã por algum grau de parentesco; outras afirmam que o patriarca previa a proteção divina ou agia segundo costumes próprios daquele tempo. Talvez essas interpretações respondam a questões históricas ou jurídicas da tradição. Nenhuma delas elimina o desconforto da cena. Um homem tem medo de morrer e permite que sua mulher seja entregue a outro. A Torá poderia ter omitido o episódio. Poderia ter apresentado seu primeiro patriarca com a segurança de um herói épico, firme desde o princípio, merecedor evidente da escolha divina. Preferiu conservar sua covardia.

Sara também não recebe o tratamento reservado às figuras idealizadas. Durante anos, ela carrega a promessa de uma descendência que seu próprio corpo parece desmentir. O tempo passa, a velhice chega e nenhuma criança nasce. Diante dessa espera, Sara oferece ao marido sua serva egípcia, Hagar, para que tenha um filho por intermédio dela. Hagar engravida, e a solução rapidamente se converte em conflito. Sara sente-se diminuída, acusa Abraão e passa a maltratar a mulher que colocara na cama do marido. Hagar foge para o deserto.

A palavra “oferece” pode suavizar demais o que acontece. Hagar era uma escravizada e não possuía liberdade equivalente à de Sara e Abraão. Seu corpo entra no projeto familiar como instrumento para produzir o herdeiro que a promessa divina ainda não concedera. Mais tarde, quando Ismael se torna uma ameaça aos olhos de Sara, mãe e filho são expulsos. Recebem pão e água e seguem pelo deserto até que a água acaba. Também nesse caso Deus intervém, ouve o choro do menino e impede que morra. A tradição nasceu com Abraão e Sara, mas o texto permite que escutemos, em meio à história dos escolhidos, o sofrimento daqueles que pagaram por suas decisões.

Essa é uma das razões para continuarmos lendo o Gênesis. Seus personagens se aproximam de Deus sem deixar de carregar consigo o medo, o desejo, o ciúme, a crueldade e as pequenas disputas da vida doméstica. Abraão ergue altares e negocia rebanhos. Recebe promessas divinas e discute com Ló sobre a ocupação das terras. Arrisca a própria família para salvar a pele e, pouco depois, reúne homens para resgatar o sobrinho capturado. Recebe estrangeiros com generosidade e tenta negociar com Deus a salvação de Sodoma. Sua fé não apaga suas contradições. É dentro delas que sua vida se desenvolve.

Em Mimesis, Erich Auerbach percebeu uma diferença decisiva entre a narrativa homérica e a narrativa bíblica. Nos poemas de Homero, os objetos, os corpos, os espaços e as ações tendem a aparecer iluminados, descritos em seus contornos e colocados diante de nós. Quando a cicatriz de Ulisses é reconhecida, o poema interrompe a cena e conta sua origem. O passado é trazido à superfície, explicado e incorporado ao presente. No Gênesis, grande parte da experiência permanece nas sombras. Deus ordena que Abraão sacrifique Isaac, e o narrador não descreve o rosto do pai, o tom de sua resposta ou a noite anterior à viagem. Sara manda expulsar Hagar, mas quase nada sabemos sobre aquilo que se passa dentro dela. O texto registra atos e palavras, deixando entre ambos um espaço que o leitor tenta preencher.

A Bíblia Hebraica foi escrita com uma economia que pode parecer secura. Seus silêncios, entretanto, produziram séculos de comentários. Cada lacuna abriu uma passagem pela qual entraram rabinos, teólogos, historiadores, críticos literários e leitores comuns. Eles perguntaram o que Abraão sentiu, o que Sara sabia, por que Isaac quase não falou, por que Deus escolheu aquela família e o que havia antes do chamado. As respostas frequentemente discordam umas das outras. O texto sobrevive também por causa desse desacordo. Uma narrativa que explicasse tudo talvez permanecesse imóvel. O Gênesis exige que cada geração retorne a ele levando perguntas que a geração anterior ainda não podia fazer.

A pergunta sobre a escolha de Abraão acompanha toda a leitura. Noé é apresentado como homem justo em sua geração. De Abraão, antes do chamado, nada semelhante se diz. Não conhecemos um ato de bondade, uma profissão de fé ou uma rebelião contra a idolatria de seu tempo. As histórias segundo as quais ele teria quebrado as imagens fabricadas pelo pai pertencem à tradição interpretativa posterior. No texto do Gênesis, Deus chama e Abraão responde caminhando. Talvez seu mérito esteja concentrado nesse movimento. A eleição, nesse caso, não constitui um prêmio concedido depois da comprovação de uma virtude. Ela inaugura uma tarefa cujo sentido somente aparecerá durante a caminhada.

A expressão “povo escolhido” acumulou, ao longo da História, interpretações religiosas, políticas e raciais que nem sempre correspondem ao que a própria Torá afirma. No Deuteronômio, a eleição de Israel está ligada à aliança, à memória da escravidão e à obediência a uma lei. O texto chega a advertir o povo contra a ideia de que sua escolha decorreria de grandeza numérica ou superioridade moral. Ser escolhido significa assumir obrigações, conservar uma memória e responder por uma forma de vida. Para comunidades submetidas à derrota, ao exílio e à dispersão, essa consciência também funcionou como uma defesa contra o desaparecimento. A eleição oferecia um motivo para continuar quando quase tudo ao redor anunciava o fim.

Abraão, entretanto, ainda não conhece a longa história que será construída sobre seus passos. Durante boa parte de sua vida, as promessas recebidas parecem uma provocação. A terra pertence a outros povos. Sara continua sem filhos. O patriarca envelhece e contempla a possibilidade de que um servo herde tudo o que possui. Em determinado momento, ele cobra de Deus uma resposta: continua sem descendência e deseja saber como reconhecerá o cumprimento da promessa. Essa fala raramente aparece nas imagens piedosas. Nelas, a fé costuma assumir a forma de uma certeza tranquila. No Gênesis, a fé de Abraão convive com a suspeita de que ele pode ter conduzido sua família para um beco sem saída.

Foi essa mistura de esperança e desespero que Auerbach identificou na personagem bíblica. Abraão obedece, mas sua obediência possui profundidade porque não elimina a vacilação. Ele acredita e exige sinais; caminha e teme ter caminhado em vão; confia em Deus e tenta resolver por conta própria aquilo que Deus demora a cumprir. Ismael nasce dessa tentativa. O conflito entre Sara e Hagar também. Quando os seres humanos procuram apressar uma promessa divina, geralmente alguém mais fraco suporta as consequências.

O Gênesis poderia ser lido como uma sucessão de grandes acontecimentos: a criação, a queda, o dilúvio, Babel, o chamado de Abraão, o nascimento de Isaac. Sua força literária, porém, manifesta-se com maior intensidade dentro das tendas. Marido e mulher discutem por causa de uma serva. Irmãos disputam bênçãos. Mulheres estéreis choram por filhos. Pais preferem uma criança à outra. Uma jovem é violentada, um irmão é vendido, um velho acredita que o filho morreu. O sublime e o cotidiano ocupam o mesmo espaço. Deus estabelece alianças enquanto uma família tenta sobreviver às próprias escolhas.

Penso que é por isso que os patriarcas se tornem menos interessantes quando seus erros são apagados. A defesa permanente de Abraão e Sara acaba retirando deles aquilo que a narrativa lhes concedeu: espessura humana. Se Abraão soubesse sempre o que fazer, sua caminhada seria o cumprimento mecânico de um destino. Se Sara suportasse a espera sem ressentimento, sua maternidade tardia perderia parte de sua dor. A perfeição pode servir ao culto, mas raramente produz personagens capazes de atravessar milênios.

Reler essas histórias exige certa coragem porque a reverência pode se tornar uma forma de cegueira. O rabino Rogério Cukierman observou que a tradição acumulou explicações para os erros dos patriarcas até quase transformá-los em figuras sem erros. Retornar ao texto significa abandonar por alguns instantes essa proteção. Abraão colocou Sara em risco. Sara submeteu Hagar à violência. Hagar e Ismael sofreram. Reconhecer esses fatos permite que ela recupere a honestidade que já estava em suas páginas.

Quando terminei a leitura, a imagem das estrelas ainda permanecia ali. Deus leva Abraão para fora da tenda e manda que olhe o céu. Seus descendentes serão tão numerosos quanto aqueles pontos de luz, caso ele consiga contá-los. A cena conserva sua beleza, mas agora vem acompanhada por tudo o que aconteceu dentro da tenda: o medo de Abraão, a amargura de Sara, o corpo de Hagar, o choro de Ismael. A promessa nunca pairou acima da vida familiar, limpa de suas misérias. Foi confiada a pessoas que feriam umas às outras e, mesmo assim, precisavam continuar caminhando.

Abraão e Sara chegaram até nós porque a Torá se recusou a esconder que eram feitos da mesma matéria que seus descendentes. Antes de se tornarem patriarca e matriarca, foram um homem e uma mulher tentando acreditar numa promessa que quase sempre parecia impossível. Deus não fundou sua aliança sobre a perfeição. Depositou-a nas mãos trêmulas de uma família.

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