A seção Coleguinhas e o jornalismo que encontrei em São Paulo

As trajetórias que eu lia com estranheza na faculdade passaram a fazer sentido quando precisei ganhar a vida na profissão.


Na faculdade, eu achava engraçada uma seção da Revista Imprensa chamada Coleguinhas. Ali apareciam histórias de jornalistas que haviam trocado de profissão ou mantinham outra ocupação em paralelo. Eu lia aquelas trajetórias com certa impaciência. Queria conhecer os repórteres que tinham chegado às grandes redações, os editores capazes de contar a um iniciante por onde começar. Por que reservar espaço a quem havia saído do jornalismo?

Eu ainda não tinha me mudado para São Paulo. Conhecia a profissão pelos livros, pelas aulas e pelas reportagens que admirava. Sabia pouco sobre o que acontecia entre escrever bem e conseguir pagar as contas com a escrita.

Já na cidade, recebi propostas de agências de comunicação que ofereciam dois dólares por artigo. Eram textos feitos à distância, sem apuração na rua, mas que ainda exigiam pesquisa, seleção de informações e trabalho de redação. Lembro da conta que fiz na hora: quantos daqueles artigos eu precisaria escrever para sustentar um mês de vida?

Hoje, a inteligência artificial generativa acrescenta outra pressão a esse tipo de trabalho. Ela pode acelerar algumas tarefas, mas também oferece a quem contrata mais um argumento para reduzir o preço de um texto. A máquina não precisa pagar aluguel em São Paulo. Quem confere o que ela escreveu, sim.

Na época em que publiquei a primeira versão desta crônica, repeti um dado segundo o qual 68% dos jornalistas trabalhavam em assessoria de imprensa. Os levantamentos que consultei agora apresentam outro retrato. Na pesquisa Perfil do Jornalista Brasileiro 2021, 34,9% dos respondentes atuavam fora da mídia, em atividades que incluem assessoria, comunicação e produção de conteúdo digital. Portanto, não seria correto tratar aquele antigo percentual como uma medida atual da categoria, nem reduzir todo o trabalho fora das redações à assessoria de imprensa.

O dado que melhor expressa minha lembrança de São Paulo talvez seja outro. Segundo levantamento do Dieese divulgado pela Federação Nacional dos Jornalistas em 2026, o número de vínculos formais no jornalismo brasileiro caiu de 60.899, em 2013, para 50.330, em 2025. São 10.569 postos a menos. A conta não inclui toda a gente que trabalha como autônoma ou pessoa jurídica, mas mostra o estreitamento de uma porta pela qual muitos de nós esperávamos entrar.

Trabalhar em assessoria pode ser uma escolha fértil. Conheço profissionais que encontraram ali bons projetos e uma vida mais estável do que teriam numa redação. O problema começa quando a escolha desaparece: quando se aceita qualquer valor por um texto, quando uma ocupação paralela deixa de ser interesse e vira condição para continuar exercendo a profissão.

Demorei a perceber isso porque confundia o desejo de ser jornalista com a possibilidade de viver do jornalismo. Ao reler mentalmente a seção Coleguinhas, penso na facilidade com que eu julgava aquelas mudanças de rumo. Queria que seus personagens me ensinassem a permanecer. Talvez já estivessem me mostrando, à sua maneira, o que era preciso fazer para continuar.

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