Da ilha dos amores aos cus de Judas

Camões organizou a viagem portuguesa como epopeia de fundação; Lobo Antunes regressou à África para recolher, entre cadáveres, silêncios e memórias partidas, os destroços desse mesmo império.


Camões começa Os Lusíadas escolhendo aquilo que Portugal deveria recordar de si mesmo: as armas, os navegadores, os reis e a travessia do mar. Publicado em 1572, o poema reúne episódios dispersos da história portuguesa e lhes atribui uma direção, como se a formação do reino tivesse preparado, desde o princípio, a chegada de Vasco da Gama à Índia. O poema reuniu acontecimentos dispersos da história portuguesa, acomodou-os dentro da forma prestigiosa da epopeia clássica e atribuiu à expansão marítima um sentido que ultrapassava o comércio, a conquista territorial e a guerra. Sob a condução de Camões, as viagens portuguesas ganham a solenidade de uma missão histórica, amparada pelos deuses antigos e incorporada aos desígnios da providência cristã. Portugal podia ser pequeno no mapa europeu; dentro do poema, tornava-se grande o bastante para alterar a ordem do mundo.

Quatro séculos depois, quando António Lobo Antunes publicou Os cus de Judas, em 1979, essa construção encontrava-se cercada pelos escombros da Guerra Colonial, pela Revolução dos Cravos, pela independência das antigas colônias africanas e pelo retorno de milhares de soldados portugueses traumatizados. A viagem a Angola realizada pelo narrador do romance guarda uma relação subterrânea com a viagem de Vasco da Gama. Os dois deixam Lisboa, atravessam o mar e chegam à África como representantes de Portugal. A semelhança termina quando cada viajante procura conferir sentido à experiência. Gama regressa integrado a uma narrativa coletiva, cercado pela glória dos antepassados e pela promessa de futuros triunfos. O médico de Lobo Antunes regressa com a consciência devastada, incapaz de organizar a guerra numa história coerente, preso a imagens que irrompem durante uma conversa noturna com uma mulher quase silenciosa. Entre uma partida e outra, o império percorreu sua longa trajetória: nasceu como canto, sobreviveu como ideologia e terminou como trauma.

Para os estudantes de Tradição e Ruptura em Literatura, a aproximação entre essas obras permite compreender que a ruptura literária raramente consiste no abandono absoluto das formas anteriores. Lobo Antunes escreve sobre um mundo que aprendeu a imaginar Portugal com a ajuda de Camões. O romance contemporâneo recolhe palavras, imagens, instituições e fantasias legadas pela tradição imperial e as submete à experiência de quem viu a guerra por dentro. A epopeia oferecia unidade ao passado; o romance apresenta uma memória que perdeu a capacidade de obedecer a qualquer ordem. A estrutura de cada obra já contém uma interpretação de Portugal.


A arquitetura da grandeza

A proposição de Os Lusíadas anuncia o projeto do poema antes que a viagem propriamente dita comece. Camões apresenta a matéria que pretende cantar e define o sujeito de sua epopeia:


As armas e os barões assinalados
Que, da Ocidental praia Lusitana,
Por mares nunca de antes navegados
Passaram ainda além da Taprobana,
Em perigos e guerras esforçados,
Mais do que prometia a força humana,
E entre gente remota edificaram
Novo Reino, que tanto sublimaram.
(CAMÕES, 2009, canto I, est. 1).


As “armas” e os “barões” aproximam imediatamente o poema das epopeias antigas. A fórmula recorda a abertura da Eneida, em que Virgílio canta as armas e o homem destinado a fundar Roma. Camões escolhe como herói uma coletividade: os navegadores, os reis, os guerreiros e, por extensão, “o peito ilustre lusitano”. Vasco da Gama ocupa o centro da ação, embora carregue consigo toda uma genealogia nacional. Quando fala ao rei de Melinde, no canto III, sua voz transforma-se na voz da história portuguesa. A viagem à Índia comporta, então, várias viagens anteriores; o passado inteiro parece avançar dentro das embarcações.

A construção do mito fundador depende dessa articulação entre um acontecimento delimitado — a abertura do caminho marítimo para a Índia — e uma história nacional que recua às origens de Portugal. Camões trabalha com três tempos. O primeiro corresponde ao presente da viagem de Vasco da Gama, iniciada in medias res, quando a armada já navega pelo oceano Índico. O segundo reúne o passado narrado pelo capitão aos interlocutores africanos, incluindo episódios como a formação do reino, a batalha de Ourique, a história de Inês de Castro e a batalha de Aljubarrota. O terceiro projeta o futuro das conquistas portuguesas, revelado por meio de profecias e visões. Desse modo, o poema cerca a viagem por todos os lados. Aquilo que ocorreu antes parece prepará-la; aquilo que ocorrerá depois aparece como sua consequência necessária.

Essa arquitetura converte a história em destino. Reis, navegadores e soldados realizam ações particulares, enquanto o poema as reúne numa direção comum. Guerras dinásticas, disputas políticas, interesses comerciais e atos de violência recebem uma forma capaz de ordená-los. O passado deixa de parecer uma sucessão incerta de conflitos e assume a aparência de uma marcha conduzida para o mar. A expansão ultramarina surge como culminação da história portuguesa, momento em que um povo confinado à extremidade ocidental da Europa atravessa suas fronteiras geográficas e alcança o centro do mundo conhecido.

Camões amplia essa grandeza por meio da comparação com os antigos. Depois de anunciar os navegadores portugueses, o poeta pede que cessem as celebrações de Ulisses, Eneias, Alexandre e Trajano:


Cessem do sábio Grego e do Troiano
As navegações grandes que fizeram;
Cale-se de Alexandro e de Trajano
A fama das vitórias que tiveram.
(CAMÕES, 2009, canto I, est. 3).


A imitação dos modelos clássicos contém uma disputa com esses mesmos modelos. Camões acolhe Homero e Virgílio dentro da língua portuguesa e procura superá-los pela matéria histórica do poema. Os heróis antigos pertenciam a um mundo remoto e parcialmente fabuloso; os portugueses haviam realizado suas navegações num passado recente, documentado por crônicas, relatos e testemunhos. A epopeia transfere para Portugal o capital simbólico da Antiguidade. Lisboa pode agora apresentar seus próprios argonautas, seu próprio Eneias e seus próprios feitos dignos de memória.

O recurso à mitologia greco-romana participa dessa operação. No Concílio dos Deuses, Baco procura impedir o avanço dos portugueses, enquanto Vênus e Marte os protegem. A viagem marítima ganha uma dimensão cósmica: deuses discutem o destino de uma frota humana. O maravilhoso pagão, inserido num horizonte cristão, fornece ao acontecimento histórico a amplitude que a epopeia exige. As tempestades, os encontros e os perigos já pertencem ao domínio da política imperial e, simultaneamente, à ordem do universo.

A presença dos deuses também permite representar as forças que favorecem ou ameaçam o empreendimento português. Baco teme perder no Oriente a fama que conquistara; sua resistência traduz o conflito entre antigas e novas hegemonias. Vênus percebe nos portugueses qualidades associadas aos romanos e decide protegê-los. O poema fabrica, assim, uma linhagem simbólica na qual Portugal aparece como herdeiro de Roma. A língua portuguesa, descendente do latim, fortalece essa aproximação. O império marítimo recebe a dignidade do império antigo, enquanto o poeta reivindica para seu idioma um lugar entre as grandes línguas literárias.

A regularidade formal sustenta esse mundo ordenado. Os Lusíadas possui dez cantos, 1.102 estrofes e 8.816 versos, organizados predominantemente em oitavas decassilábicas com o esquema de rimas ABABABCC. Cada estrofe contém uma pequena arquitetura: os seis primeiros versos desenvolvem a matéria, e o dístico final frequentemente a conclui com uma sentença, uma imagem ou uma inflexão decisiva. A disciplina métrica converte a instabilidade do oceano em cadência. Tempestades, batalhas, discursos e profecias submetem-se à medida do verso. O domínio formal exercido pelo poeta guarda correspondência com o domínio náutico atribuído aos navegadores. Camões governa a língua como Gama governa a armada.

A viagem reúne ainda os componentes tradicionais da epopeia: proposição, invocação, dedicatória, narração dos feitos, intervenção do maravilhoso e glorificação heroica. A invocação às Tágides procura instituir uma inspiração adequada à matéria portuguesa. As musas agora habitam o Tejo. O deslocamento possui força cultural: a poesia épica abandona sua morada exclusivamente mediterrânica e encontra uma nascente portuguesa. Ao pedir um “som alto e sublimado”, Camões associa a grandeza do estilo à grandeza do objeto. Um império precisa de uma dicção capaz de torná-lo memorável.

A dedicatória a D. Sebastião introduz o poema no presente político de 1572. O jovem rei aparece como esperança de continuidade do projeto expansionista e destinatário de uma pedagogia heroica. Camões canta o passado para orientar o futuro do soberano. A epopeia desempenha, nesse ponto, uma função pública: celebra, aconselha, adverte e busca intervir na condução do reino. O mito fundador depende de sua capacidade de produzir condutas. Os mortos oferecem modelos aos vivos; a glória narrada solicita novas ações gloriosas.

A Ilha dos Amores, oferecida por Vênus aos navegadores no canto IX, representa a consagração sensível do heroísmo. Depois dos perigos da viagem, os portugueses recebem como recompensa uma ilha preparada para satisfazê-los. O episódio mistura erotismo, alegoria e apoteose. As ninfas reconhecem o valor dos marinheiros, e a natureza inteira parece celebrar sua vitória. O império encontra uma forma paradisíaca: conquistar o mundo conduz ao prazer, ao conhecimento e à imortalidade da fama. Na ilha, o desejo masculino e a expansão territorial aproximam-se. A terra surge disponível ao navegador vitorioso, figura que ajuda a compreender a imaginação colonial elaborada ao longo dos séculos seguintes.

No canto X, a Máquina do Mundo oferece a Vasco da Gama uma visão total do universo. Depois de atravessar mares desconhecidos, o navegador contempla a ordem cósmica e recebe o conhecimento das futuras ações portuguesas. O olhar imperial torna-se panorâmico. Ver o mundo inteiro equivale a ocupá-lo simbolicamente, nomear seus lugares e inscrevê-los numa narrativa portuguesa. A cartografia, a cosmologia e a poesia colaboram na produção desse olhar. O oceano, antes percebido como limite, transforma-se no meio pelo qual Portugal se imagina universal.

As fissuras do canto

A força celebratória de Os Lusíadas convive com passagens de desalento. Camões conhecia as contradições da expansão e experimentara pessoalmente a precariedade dos serviços prestados à Coroa. O poema exalta o feito marítimo enquanto dirige críticas à cobiça, ao abandono das artes, à corrupção e à incapacidade dos governantes de reconhecer o mérito. A fala do Velho do Restelo, no canto IV, interrompe o entusiasmo da partida e nomeia a “glória de mandar” e a “vã cobiça” que conduzem os homens ao perigo. Sua voz introduz uma interpretação sombria da viagem:


Ó glória de mandar! Ó vã cobiça
Desta vaidade, a quem chamamos Fama!
(CAMÕES, 2009, canto IV, est. 95).


O Velho do Restelo enxerga na expansão uma forma de desejo capaz de sacrificar vidas, famílias e recursos. Sua censura permanece dentro do poema, cercada pela realização heroica que a narrativa continuará a celebrar. A ambivalência impede uma leitura inteiramente homogênea da epopeia. Camões constrói o monumento e grava nele a consciência de suas rachaduras. O mito português surge poderoso, acompanhado pela suspeita de que a fama cobra um preço alto e favorece interesses menos nobres que os proclamados.

O Adamastor concentra outra fissura. A figura gigantesca encarna o Cabo das Tormentas e ameaça os navegadores com naufrágios e mortes futuras. Sua própria história, marcada pelo desejo frustrado por Tétis, transforma o obstáculo geográfico numa personagem trágica. Para a perspectiva portuguesa, o gigante representa a natureza vencida pela coragem e pela técnica náutica. Uma leitura pós-colonial percebe ainda o corpo ameaçador que se ergue diante da entrada europeia no oceano Índico. Adamastor anuncia que a expansão espalhará sofrimento entre os próprios conquistadores. O império avança, deixando mortos no caminho.

O encerramento do poema aprofunda o desencanto. A voz que antes reivindicava uma altura épica apresenta-se cansada diante de uma pátria mergulhada na cobiça e na tristeza:


No mais, Musa, no mais, que a Lira tenho
Destemperada e a voz enrouquecida,
E não do canto, mas de ver que venho
Cantar a gente surda e endurecida.
(CAMÕES, 2009, canto X, est. 145).


A lira destemperada complica a imagem de uma epopeia triunfal. O poeta conclui sua celebração diante de ouvintes incapazes de corresponder à grandeza cantada. A distância entre os heróis representados e a sociedade contemporânea produz uma melancolia que atravessa o final. A tradição imperial portuguesa encontraria, nos séculos seguintes, amplo uso para a face gloriosa do poema. As advertências camonianas continuariam ali, disponíveis para leituras que reconhecessem na epopeia um conflito entre grandeza, violência, desejo e ruína.

A viagem depois do império

Os cus de Judas começa num espaço distante das caravelas e dos palácios. Um homem conversa com uma mulher num bar de Lisboa. Durante a noite, bebe, seduz, recorda e fala compulsivamente. A interlocutora quase permanece fora do alcance do leitor; conhecemos suas possíveis perguntas pelas respostas do narrador. O romance inteiro parece nascer da tentativa de preencher esse silêncio. A guerra em Angola retorna através de associações, imagens, odores, corpos feridos, lembranças da infância e fragmentos da vida posterior. O narrador procura contar sua história, embora cada memória abra outras feridas e desorganize a sequência dos acontecimentos.

Publicado em 1979, cinco anos após a Revolução dos Cravos e a poucos anos do encerramento da Guerra Colonial, o romance integra o primeiro ciclo da produção de Lobo Antunes, ao lado de Memória de elefante e Conhecimento do inferno. A experiência do escritor como médico do Exército português em Angola, entre 1971 e 1973, fornece parte decisiva de sua matéria ficcional. A narrativa situa-se naquele território instável em que autobiografia, testemunho, memória e invenção se contaminam. O narrador compartilha traços com o autor, embora o romance elabore uma voz construída pela linguagem, atravessada por exageros, fantasias, deformações e contradições.

A estrutura dos capítulos oferece uma primeira chave para a comparação com Camões. Eles recebem como títulos as letras do alfabeto, de A a Z, considerando as 23 letras usadas oficialmente no português da época. À primeira vista, o alfabeto promete totalidade e ordem: começar em A, terminar em Z, percorrer todas as etapas de uma experiência. A leitura desfaz essa promessa. As recordações avançam por movimentos associativos, retornam, interrompem-se e confundem tempos distintos. A ordem exterior dos capítulos envolve uma consciência interiormente despedaçada. O alfabeto, sistema elementar pelo qual aprendemos a organizar a linguagem, torna-se moldura para aquilo que resiste à organização.

Em Camões, os dez cantos integram acontecimentos dispersos numa história providencial. Em Lobo Antunes, os capítulos alfabéticos expõem o fracasso da totalização. A experiência da guerra deixou resíduos, cenas obsessivas e palavras incapazes de cicatrizar o vivido. O narrador fala porque a memória insiste; sua fala tampouco alcança uma conclusão apaziguadora. A história nacional já perdeu a forma de marcha. Ela chega à consciência como estilhaço.

As duas obras começam sob o signo da fabricação do homem português. Camões apresenta os “barões assinalados”, homens cuja coragem ultrapassa “a força humana”. A família do narrador de Os cus de Judas conserva uma versão empobrecida e autoritária desse ideal. Diante do jovem convocado para a guerra, os parentes celebram a transformação prometida pelo Exército: “a tropa há de torná-lo um homem” (ANTUNES, 2003, p. 14-15). A frase condensa séculos de educação imperial. Ser homem significa combater, obedecer, dominar o medo, servir à pátria e provar a virilidade em território africano. A guerra colonial apresenta-se como ritual de passagem oferecido por uma sociedade patriarcal.

Lobo Antunes acompanha a decomposição desse modelo. A guerra fabrica um sobrevivente assombrado, preso à culpa, à impotência e à dificuldade de estabelecer relações afetivas. A masculinidade épica chega ao século XX administrada por quartéis, famílias conservadoras, propaganda salazarista e discursos religiosos. O herói coletivo cede lugar a um indivíduo incapaz de reconhecer a pessoa em que se transformou. A “aprendizagem” proporcionada pela guerra conduz à agonia.

A partida de Lisboa também reaparece alterada. Em Os Lusíadas, as naus deixam o Restelo sob lágrimas e temores, enquanto a narrativa conhece antecipadamente a grandeza do destino. O sofrimento da despedida será absorvido pela glória do regresso. No romance, a cidade afasta-se “num turbilhão [...] de marchas marciais” (ANTUNES, 2003, p. 21). A música militar, destinada a produzir entusiasmo, acompanha rostos imóveis e trágicos. O navio transporta jovens para uma guerra mantida por um regime que insistia na fantasia de Portugal como nação pluricontinental. A partida conserva seus ritos, embora a promessa de grandeza tenha envelhecido. Restaram uniformes, hinos, discursos e homens enviados para territórios que o poder chamava de províncias ultramarinas.

A África camoniana pertence ao itinerário da expansão. Seus reis, mercadores, povos e paisagens aparecem filtrados pela perspectiva da viagem portuguesa. Em Lobo Antunes, Angola surge como espaço concreto de devastação, marcado pelo mato, pelas minas, pelos helicópteros, pelas evacuações médicas, pelos soldados mutilados e pelas populações submetidas à violência. O próprio título retira da geografia imperial qualquer dignidade cartográfica. “Os cus de Judas” designa um lugar remoto, abandonado, situado fora da atenção daqueles que controlam a guerra desde Lisboa. A periferia do império revela o conteúdo material da retórica metropolitana.

O contraste entre os títulos resume uma mudança histórica. Os Lusíadas nomeia um povo pela descendência mítica de Luso e lhe oferece unidade. Os cus de Judas escolhe uma expressão vulgar, corporal e periférica. O primeiro título reúne; o segundo lança o leitor num espaço de abandono. Luso representa uma origem nobilitadora; Judas carrega a traição. O corpo grotesco substitui a genealogia heroica, e a parte baixa do corpo invade o lugar antes ocupado pelo “peito ilustre lusitano”. O império passa da cabeça erguida do navegador ao corpo ferido do soldado.

A linguagem dos dois livros realiza essa transformação. Camões emprega a elevação retórica, o decassílabo, a oitava-rima, a mitologia e o discurso oratório. Lobo Antunes escreve períodos extensos, carregados de comparações inesperadas, enumerações, imagens grotescas e deslocamentos temporais. Sua prosa avança como uma consciência alcoolizada que tenta adiar o silêncio. A abundância metafórica produz uma espécie de lirismo contaminado. Objetos cotidianos, animais, órgãos, excrementos, ruínas e lembranças familiares misturam-se. A guerra dissolve as hierarquias que separavam o sublime do repulsivo.

Essa opção estética contém uma crítica à linguagem imperial. O Estado Novo português prolongou a imagem da vocação ultramarina do país e mobilizou a tradição épica para legitimar sua presença em África. O vocabulário oficial falava em missão civilizadora, defesa da pátria, unidade nacional e heroísmo. Lobo Antunes devolve essas palavras ao campo de batalha, onde encontram corpos amputados, aldeias destruídas e soldados que desconhecem o sentido daquilo que fazem. A materialidade da guerra corrói a abstração patriótica.

O narrador ocupa uma posição incômoda nesse processo. Ele participou do Exército colonizador e reconhece a violência da colonização. Sua consciência crítica surge ligada à culpa, sem lhe conceder um lugar moralmente puro. Médico, deveria preservar vidas; como militar, integra uma máquina que produz mortos. Português, carrega a cultura e os privilégios da metrópole; regressado, sente-se estrangeiro em Lisboa. A identidade desmancha-se entre essas posições. A primeira pessoa do romance traz a história para dentro do sujeito e revela que o império também destruiu aqueles que enviou para defendê-lo, numa escala diferente da violência imposta aos povos colonizados.

Essa diferença de escala precisa permanecer visível. O sofrimento do soldado português jamais absorve a experiência angolana. O romance privilegia a voz do ex-combatente europeu e, por isso, suas personagens africanas aparecem muitas vezes através de seu olhar. Ainda assim, a fragmentação desse olhar impede a restauração confortável da autoridade colonial. O narrador regressa sem a certeza de que conhece Angola, Portugal ou a si mesmo. A antiga confiança épica no poder de nomear o mundo cede espaço a uma fala que reconhece sua própria desorientação.

Tradição, ruptura e memória

A ruptura promovida por Os cus de Judas alcança seu sentido mais profundo quando o romance é lido dentro da tradição que Os Lusíadas ajudou a formar. Lobo Antunes escreve após Camões, após o uso escolar e político de Camões, após séculos de expansão e após a conversão da epopeia em monumento nacional. Seu romance dirige-se tanto à guerra vivida em Angola quanto às narrativas que tornaram aquela guerra imaginável. Os jovens embarcaram porque um sistema político ainda conseguia apresentar a África como parte do destino português. A epopeia renascentista e a propaganda salazarista pertencem a momentos históricos distintos; o regime soube apropriar-se da memória dos descobrimentos para prolongar sua política colonial.

Camões cantara uma potência marítima que buscava conferir forma duradoura a suas conquistas. Lobo Antunes escreve quando o mar devolve soldados, colonos e lembranças que Portugal preferiria esquecer. A viagem de ida, central no imaginário expansionista, converte-se numa poética do regresso. Quem regressa traz consigo a prova de que nenhum retorno recompõe inteiramente o lugar deixado para trás. Lisboa continua ali, com suas ruas, bares e apartamentos, enquanto o sobrevivente a percorre como alguém que perdeu a linguagem comum.

O espaço de enunciação das duas obras também carrega essa mudança. Camões assume a voz pública do poeta que fala ao rei e à comunidade portuguesa. Mesmo quando lamenta sua pobreza ou denuncia a ingratidão dos poderosos, apresenta-se como responsável pela memória coletiva. O narrador de Lobo Antunes fala a uma mulher anônima durante uma noite de bebida. Seu discurso nasce numa situação íntima, precária, quase clandestina. A nação já deixou de ouvir seus poetas reunida em torno de uma epopeia; um homem tenta contar a guerra a alguém cuja atenção permanece incerta.

A mulher silenciosa funciona como destinatária e superfície de projeção. O narrador procura seduzi-la, confessar-se e justificar-se. Em diversos momentos, parece falar consigo mesmo. A comunicação encontra-se ameaçada desde o início. Em Os Lusíadas, o poeta acredita que o canto preservará os feitos contra o esquecimento. Em Os cus de Judas, a fala luta contra um esquecimento que se instalou dentro da própria memória. Recordar significa reviver imagens que jamais adquiriram a distância necessária para se transformarem em passado.

O final de cada obra torna essa diferença ainda mais aguda. Camões termina enrouquecido, embora conserve a expectativa de que D. Sebastião realize feitos dignos de novos cantos. Seu desencanto dirige-se a um presente que ainda poderia ser corrigido pela ação do rei. A história permanece aberta à recuperação heroica. O romance de Lobo Antunes chega à letra Z sem redenção política, amorosa ou psicológica. A noite termina, a mulher partirá e o narrador continuará entregue aos fantasmas. Percorrer o alfabeto inteiro foi insuficiente para produzir uma frase capaz de salvá-lo.

A tradição literária portuguesa pode ser percebida entre essas duas vozes enrouquecidas. A primeira se cansa de cantar a uma “gente surda e endurecida”; a segunda fala compulsivamente diante de uma ouvinte quase muda. Camões teme a surdez do reino diante da poesia. Lobo Antunes enfrenta a surdez de um país diante da memória colonial. A distância de quatro séculos preserva uma inquietação: que espécie de comunidade pode surgir quando seus membros recusam escutar o preço de sua grandeza?

Ler Os Lusíadas somente como propaganda imperial reduz sua complexidade e ignora as advertências inscritas pelo próprio Camões. Ler Os cus de Judas apenas como negação da epopeia também empobrece a relação entre as obras. O romance contemporâneo herda do poema épico a ambição de pensar Portugal por meio de uma viagem. Herda ainda a intensidade metafórica, o trabalho radical com a língua e a convicção de que a literatura pode disputar o sentido da história. A ruptura ocorre dentro dessa herança. Lobo Antunes vira a viagem pelo avesso, desloca o olhar para o soldado anônimo, substitui a totalidade pela fragmentação e conduz o leitor da glória marítima à lama da guerra colonial.

A disciplina de Tradição e Ruptura encontra nesse diálogo um de seus problemas fundamentais. Uma obra passa a integrar a tradição quando continua produzindo respostas, apropriações, recusas e reescritas. Camões ofereceu a Portugal uma imagem grandiosa de si mesmo, forte o bastante para atravessar os séculos. Lobo Antunes recebeu essa imagem depois que a história a cobriu de sangue e poeira. Seu romance contempla o antigo retrato nacional por meio dos olhos de alguém que esteve dentro da moldura e descobriu, tarde demais, tudo o que ela deixava fora.

Entre a Ilha dos Amores e os cus de Judas estende-se a história do império português. Num extremo, os navegadores recebem ninfas e contemplam a Máquina do Mundo; no outro, um médico recolhe pedaços de corpos e tenta reconhecer, entre eles, os pedaços de sua própria consciência. A literatura acompanha essa travessia porque participou de sua origem e recebeu seus destroços. Camões deu ao mar uma forma heroica. Lobo Antunes escutou o que o mar trouxe de volta.

O estudante que lê essas obras em conjunto aprende a desconfiar das separações confortáveis entre monumento e ruína. O monumento já guardava uma voz cansada, um velho que denunciava a cobiça e um gigante que profetizava mortes. A ruína conserva uma extraordinária energia verbal e procura, entre lembranças partidas, alguma forma possível de conhecimento. Tradição e ruptura habitam o mesmo território. A primeira fornece as palavras com que um país aprende a sonhar; a segunda devolve a essas palavras o peso das vidas sacrificadas em seu nome.

Talvez a literatura portuguesa tenha precisado desses dois livros para contar a extensão de sua viagem. Um escreveu o instante em que Portugal se imaginou maior que sua geografia. O outro registrou a madrugada em que um português percebeu a devastação produzida por esse sonho. Entre ambos permanece a língua, ora disciplinada pela oitava-rima, ora arrastada pelo fluxo febril da memória. É nela que a glória e a culpa continuam a se enfrentar. É nela também que os mortos, afastados das celebrações oficiais, recuperam por um momento o direito de regressar.

Edições utilizadas

ANTUNES, António Lobo. Os cus de Judas. Rio de Janeiro: Objetiva, 2003.

CAMÕES, Luís de. Os Lusíadas. Organização de Emanuel Paulo Ramos. 9. ed., 9. reimp. Porto: Porto Editora, 2009.
Referências críticas

BACCARIN-COSTA, Eduardo Luiz. Os cus de Judas, de António Lobo Antunes: uma releitura do passado histórico português a partir da desconstrução do “eu”. Desassossego, São Paulo, v. 11, n. 20, p. 210-223, jun. 2019. DOI: 10.11606/issn.2175-3180.v11i20p210-223.

FELIPE, Cleber Vinicius do Amaral. Os Lusíadas, 450 anos depois: hipóteses de leitura. História da Historiografia, Ouro Preto, v. 15, n. 40, p. 235-264, 2022.

ROMMEL, Leonardo von Pfeil; SPAREMBERGER, Alfeu. A construção da memória da Guerra Colonial em Os cus de Judas, de Lobo Antunes. Navegações, Porto Alegre, v. 10, n. 1, p. 3-11, jan./jun. 2017. DOI: 10.15448/1983-4276.2017.1.25252.

SEIXO, Maria Alzira. Os romances de António Lobo Antunes: análise, interpretação, resumos e guiões de leitura. Lisboa: Dom Quixote, 2002.

SILVA, Alba Valéria Niza. A guerra de “A” a “Z”: uma leitura de Os cus de Judas, de António Lobo Antunes. Travessias, Cascavel, v. 11, n. 3, p. 90-99, set./dez. 2017.

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