As histórias que nos dizem quem somos


Um mito fundador narra a origem de uma comunidade e transforma essa origem numa explicação de sua identidade. O episódio relatado pode reunir acontecimentos históricos, personagens lendários, intervenções divinas e símbolos transmitidos durante muitas gerações; sua força reside na capacidade de organizar uma memória comum, justificar costumes e oferecer aos indivíduos um lugar dentro de uma história coletiva. Ao contar de onde um povo veio, o mito também estabelece os valores que ele atribui a si mesmo e o destino que imagina cumprir. Por isso, a fundação ultrapassa o instante inicial: ela retorna nos rituais, nas festas, nos textos sagrados, nos monumentos e nas narrativas repetidas pelos mais velhos aos mais jovens.

O mito fundador organiza uma origem e entrega a um povo uma imagem de si mesmo. Sua matéria pode vir da religião, da guerra, da migração, da aventura de um herói ou da lembrança de uma catástrofe. O acontecimento narrado adquire uma força que ultrapassa a comprovação histórica. Passa a explicar costumes, instituições, fronteiras, hierarquias e compromissos coletivos. Quando uma comunidade repete esse relato, ela reafirma quem acredita ser, de onde veio e qual destino imagina cumprir.

A palavra “mito” costuma ser confundida com mentira. Para a antropologia, a história das religiões e os estudos literários, ela possui outro alcance. O mito conta uma verdade social por meio de uma narrativa simbólica. Sua eficácia depende da capacidade de orientar a vida coletiva. Roma pode ter sido formada por processos políticos e militares bastante longos; a história de Rômulo e Remo condensou esses processos numa cena de origem. O irmão assassinado, a loba, o abandono e a fundação da cidade deram aos romanos uma memória suficientemente dramática para ser transmitida durante séculos.

A Torá fornece ao povo judeu uma de suas estruturas fundamentais de memória. O Gênesis apresenta a criação do mundo, o dilúvio, a aliança com Abraão e a trajetória dos patriarcas. O Êxodo conduz os descendentes de Israel da escravidão no Egito à liberdade, sob a liderança de Moisés. No Sinai, a libertação adquire forma jurídica e religiosa com a entrega da Lei. A comunidade nasce da aliança: Deus escolhe um povo, esse povo recebe mandamentos e sua história passa a ser interpretada à luz dessa relação. A travessia do deserto, a promessa da terra e a lembrança da escravidão tornam-se fundamentos da identidade judaica.

O caráter fundador dessa narrativa aparece com clareza em Pessach. A celebração atualiza a saída do Egito e transforma a memória dos antepassados numa experiência compartilhada pelos vivos. Cada geração ocupa simbolicamente o lugar daqueles que atravessaram o mar. A história sagrada institui uma comunidade de lembrança, e seus ritos impedem que a origem permaneça confinada ao passado. A Torá oferece um vocabulário para compreender o exílio, a fidelidade, a justiça, o sofrimento e a esperança de restauração.

O cristianismo recebeu a Torá e os demais livros da tradição judaica, relendo-os a partir da vida, da morte e da ressurreição de Jesus. O Novo Testamento ocupa posição fundadora porque narra o acontecimento que dá origem à comunidade cristã. Os Evangelhos apresentam Jesus como o Messias; a crucificação e a ressurreição estabelecem uma nova aliança; os Atos dos Apóstolos acompanham a formação das primeiras comunidades; as cartas de Paulo ajudam a definir crenças, práticas e formas de pertencimento. O cristão ingressa simbolicamente nessa narrativa por meio do batismo e a revive na Eucaristia. A repetição litúrgica da última ceia, da paixão e da ressurreição conserva o acontecimento fundador dentro do tempo presente.

Os credos religiosos condensam essas narrativas. Quando uma comunidade recita “creio”, ela reúne numa fórmula os episódios e doutrinas que sustentam sua identidade. O credo transforma uma longa história numa profissão coletiva de pertencimento. Cada frase recorda uma parte da narrativa sagrada e indica como ela deve ser compreendida. A pessoa fala na primeira pessoa, enquanto sua voz se une às vozes dos demais. A crença adquire corpo social por meio dessa recitação conjunta.

A Epopeia de Gilgamesh permite observar uma etapa muito antiga dessa necessidade de organizar simbolicamente a experiência humana. Composta a partir de tradições mesopotâmicas e preservada em diferentes versões, a epopeia acompanha o rei de Uruk, sua amizade com Enkidu, o encontro com a morte e a busca fracassada pela imortalidade. Gilgamesh começa como soberano excessivo, encontra no amigo uma medida para sua força e, depois da morte de Enkidu, percebe que nenhum poder o livrará do destino humano. Ao regressar a Uruk, reconhece nas muralhas da cidade a permanência possível de sua obra.

O poema articula a autoridade do rei, a vida urbana, a amizade, a natureza, a mortalidade e a memória. Seu relato do dilúvio aproxima-se de tradições que depois apareceriam no Gênesis, revelando a circulação de antigas imagens pelo Oriente Próximo. A epopeia preservou uma maneira mesopotâmica de compreender a civilização: os homens morrem, as cidades sobrevivem e a escrita conserva o nome daqueles que desapareceram. Sua função difere daquela desempenhada pela Torá no judaísmo ou pelo Novo Testamento no cristianismo, pois nenhuma comunidade religiosa contemporânea organiza sua vida ao redor de Gilgamesh. O poema permanece como testemunho de uma civilização que procurou enfrentar a morte por meio das obras e da narrativa.

A Ilíada entregou aos gregos uma memória heroica da Guerra de Troia. Aquiles, Heitor, Agamêmnon e os demais guerreiros encarnam valores e conflitos reconhecíveis por comunidades espalhadas por diferentes cidades. O poema examina a glória, a honra, a cólera e o preço pago por aqueles que buscam sobreviver na lembrança dos homens. A cena em que Príamo beija as mãos de Aquiles para recuperar o corpo de Heitor restitui humanidade aos adversários e suspende, por um instante, a lógica da vingança.

A Odisseia oferece outra face dessa tradição. Ulisses deseja regressar a Ítaca, recuperar sua casa e reencontrar Penélope. A identidade grega aparece vinculada à navegação, à hospitalidade, à astúcia e ao reconhecimento do lar. A guerra funda uma memória heroica; o regresso mostra o esforço necessário para recompor o mundo destruído por ela. Durante séculos, os dois poemas educaram os gregos, forneceram modelos de conduta e ofereceram aos diferentes povos helênicos um repertório comum de deuses, antepassados e aventuras.

Virgílio realizou com a Eneida uma operação política mais explícita. Eneias foge da Troia destruída carregando o pai e conduzindo o filho. Leva consigo o passado, o presente e o futuro. Sua viagem prepara a fundação de Roma, e os sofrimentos pessoais do herói recebem um sentido dentro do destino imperial. Escrita durante o governo de Augusto, a epopeia liga Roma ao mundo troiano, legitima sua grandeza e apresenta o império como cumprimento de uma missão histórica. A literatura organiza retrospectivamente o acaso, a conquista e a violência, atribuindo-lhes a aparência de necessidade.

As paixões pelos times de futebol reproduzem, em escala cotidiana e secular, parte desses mecanismos. Cada clube possui sua origem, seus mártires, seus heróis, suas derrotas traumáticas e suas vitórias milagrosas. O estádio funciona como território sagrado; a camisa identifica os membros da comunidade; o hino exerce uma função próxima à do credo; pais transmitem aos filhos histórias que eles próprios receberam. Uma final vencida nos últimos minutos converte-se numa narrativa repetida durante décadas. O torcedor recorda onde estava, quem marcou o gol e quem chorou ao seu lado.

A devoção futebolística revela a força dos mitos fundadores porque a escolha de um time raramente depende apenas de seu desempenho. Ela envolve família, bairro, classe social, cidade e memória. O torcedor aprende a dizer “nós” para falar de homens que correm em campo. Quando o clube vence, ele sente que venceu; quando perde, leva a derrota para casa. A narrativa coletiva incorpora sua biografia e oferece a ele antepassados, símbolos e companheiros.

Povos, religiões e torcidas reconhecem-se nas histórias que repetem. A fundação precisa ser contada porque nenhuma comunidade sobrevive apenas de documentos, regulamentos e datas. Ela requer imagens capazes de converter indivíduos dispersos em herdeiros de uma mesma memória. O mito cumpre essa tarefa: recolhe a fragilidade humana, dá-lhe uma origem e promete que alguma parte de nós continuará vivendo na história narrada pelos outros.

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