Acordei com o telefone tocando. Era meu tio Zezéu. Estranhei a ligação: sábado, sete da manhã. Antes de atender, fiquei alguns segundos olhando para o nome dele na tela. Há horários em que uma chamada de alguém da família já chega trazendo alguma coisa que ainda não sabemos.
— Oi, filho. Te acordei?
— Já estava na hora de acordar mesmo. Está tudo bem?
— Como você está, filho?
— Um pouco cansado, mas estou bem.
— Eu não tenho notícia boa. Toma uma água.
— Vou pegar.
Peguei a coqueteleira com água que estava na estante de livros, ao lado da cama. Dei um gole e me sentei.
— Estou sentado, Zéu.
— Ane nos deixou.
— Eu falei com ela ontem...
— Desculpe dar a notícia assim, mas não tem outra forma. Ela teve uma piora ontem à noite. Foi levada de volta ao hospital, mas não resistiu.
— Ontem ela falou comigo...
— Toma uma água com açúcar, filho.
Eu repetia que tinha falado com ela ontem porque ainda não conseguia chegar à manhã de sábado. Na sexta-feira, dia 25, às 11h02, Ane havia me escrito:
To em casa
Respondi:
Que bom
Como está se sentindo?
Melhorando
Enviei uma figurinha da Pantera Cor-de-Rosa fazendo um gesto amoroso, com três corações ao redor. Ela reagiu com um coração. A conversa ficou ali. Nenhum dos dois sabia que aquelas poucas palavras seriam as últimas.
Ane estava internada desde o dia 2. No início, sem acesso ao celular, pediu ao pai que me avisasse. Foi a conversa mais longa que já tive com ele. Além das mensagens, fiz uma ligação de 17 minutos. Nos dias seguintes, sempre pedia notícias dela. Quando saiu da UTI e recuperou o celular, voltamos a nos falar diretamente. No dia 18, às 10h50, ela escreveu dizendo que havia recebido alta. Às 11h59, mandou outra mensagem: a médica tinha voltado atrás, e ela ficaria mais alguns dias internada. Passei aquele mês aprendendo a esperar pelas notícias de Ane. Na sexta-feira, ela disse que estava em casa. No sábado, foi meu tio quem ligou.
A primeira vez que ouvi falar da minha irmã eu tinha nove anos. Morava no Bairro da Invasão com a minha mãe e meu padrasto, que sempre me tratou como filho. Meus avós paternos vieram nos visitar. Minha avó deixou um dinheiro para comprarem um par de tênis para mim e contou que eu tinha uma irmã. Ane tinha um ano de idade.
Nunca mais voltei a ver o meu avô. Minha avó só voltou a me encontrar quando eu tinha 17 anos, lá na Ilha, num fim de semana em que meu tio Zezéu me levou para visitá-la. Conheci meu pai biológico naquela viagem. Conheci também muitos primos, todos muito simpáticos. Mas a pessoa que eu mais esperava encontrar não estava lá. Foi nessa ocasião que soube que tinha ainda outro irmão.
Como boa parte das pessoas da minha geração, eu ouvia muito Legião Urbana. No último álbum gravado com Renato Russo ainda vivo, havia uma canção que se tornou a minha preferida: “Soul Parsifal”. Eu voltava sempre ao trecho em que ele dizia: “tenho jasmim, tenho hortelã, eu tenho um anjo e tenho uma irmã”. Naquele tempo, eu não conhecia Ane. Nem sequer sabia seu nome. Às vezes tentava imaginar seu rosto, a voz que teria, o que diríamos um ao outro quando nos encontrássemos. Sabia apenas que ela existia. Durante anos, foi assim que tive uma irmã.
Quando o Orkut se popularizou no Brasil, passei a procurar por ela. Encontrei seu perfil entre os contatos do meu tio Zezéu e enviei uma solicitação de amizade. Ane respondeu de modo ríspido. Expliquei que era seu irmão, mas ela disse que lhe haviam dado outro nome para ele. Precisei da ajuda do meu tio para que acreditasse em mim. Posso entender sua desconfiança. Eu aparecia de repente na tela, dizendo ocupar um lugar na vida dela que até então pertencia a outra história.
Em 2007, numa viagem a Salvador, finalmente nos conhecemos. Ela usava uma regata verde e uma bolsa a tiracolo. Tinha óculos e cabelos cacheados. Era meio riponga, parecida comigo. Lembro desses detalhes porque, depois de tantos anos sem saber sequer o seu nome, pude enfim guardar uma imagem dela que não precisava inventar.
Voltamos a nos encontrar duas vezes em São Paulo. Numa delas, Ane foi à minha casa. Fiz uma massa para ela, enquanto me ensinava a fazer bife de grão-de-bico. Ela era psicóloga, e é por causa dela que tenho essa imagem do psicólogo como alguém também um tanto perdido no mundo. Acho que ela entenderia o que quero dizer. Talvez discordasse, e ficaríamos horas discutindo.
Mesmo de longe, nosso diálogo era constante. Trocávamos muitas mensagens pelo WhatsApp e, de vez em quando, passávamos horas ao telefone. Havia desavenças de irmãos. Ela se irritava comigo, eu me irritava com ela, e depois voltávamos a conversar. Tivemos poucos encontros presenciais para uma vida inteira de parentesco, mas os anos em que não nos conhecemos não foram os únicos anos que tivemos.
Hoje perdi a minha irmã. Penso também no que essa perda poderá fazer com a possibilidade de me aproximar dos outros irmãos. Ainda não sei. Neste momento, volto à mensagem de sexta-feira. Ela estava em casa. Estava melhorando. Enviei três corações, e ela me devolveu um.
Vá em paz, Ane. Você foi amada de forma muito profunda.
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