Outro dia, enquanto fazia uma matéria, fui apresentado a um garoto de 14 anos que me disse sonhar em ser jornalista. Sua mãe, que apresentava o filho toda orgulhosa, queria saber se eu teria alguma sugestão para a futura carreira do moleque. O garoto permanecia ao lado dela, um pouco constrangido com a exposição, mas atento ao que eu responderia.
Em outra época, eu teria ficado lisonjeado. Esse tempo passou. Talvez eu até dissesse alguma coisa sobre a importância da profissão, a busca pela verdade, o compromisso com a sociedade e outras ideias que aprendemos a repetir quando ainda acreditamos que o jornalismo possui um lugar claramente definido no mundo. Dentro da minha pequena experiência, sei o quanto está difícil conseguir emprego no ramo. Trabalhos como freelancer funcionam como paliativos, mas até esses têm se tornado cada vez mais raros e mal remunerados.
Não duvido de que algumas pessoas ainda consigam manter-se apenas com os ganhos da profissão. Isso, no entanto, não tem sido verdade para mim. As redações encolheram, muitos jornais desapareceram e boa parte do trabalho migrou para a internet sem que surgisse um modelo capaz de remunerar adequadamente quem o realiza. Exige-se do jornalista que escreva, fotografe, grave, edite, publique e divulgue. Algumas vezes, espera-se que faça tudo isso sozinho, depressa e por um valor que mal corresponde a uma das tarefas.
A internet ampliou os espaços de publicação, mas também apagou algumas fronteiras. Um texto apurado durante dias aparece na mesma tela em que circulam boatos, anúncios disfarçados de notícia, opiniões escritas às pressas e postagens produzidas apenas para disputar a atenção do leitor. Alguns jornalistas conseguem viver da produção de conteúdo digital, embora nem sempre aquilo que produzem possa ser chamado de jornalismo. Outros acumulam empregos, prestam assessoria, dão aulas ou trabalham em áreas completamente diferentes para continuar escrevendo quando sobra algum tempo.
Diante de uma situação como essa, o que eu poderia dizer àquele garoto ou à sua mãe? Permaneci calado por alguns segundos. Passei a mão pelo celular, conferi a tela sem que houvesse nada para conferir e tentei organizar uma resposta. Os dois me observavam como se a experiência tivesse me ensinado alguma coisa que pudesse ser transmitida ali, em poucas palavras. Eu não sabia o que dizer.
Os cursos de jornalismo continuam recebendo alunos Brasil afora, embora o diploma já não seja exigido e a formação universitária esteja longe de garantir emprego. Um bacharelado, sozinho, significa muito pouco. A universidade pode ensinar técnicas, apresentar referências, proporcionar contatos e oferecer alguma compreensão histórica e ética da profissão. Não pode, entretanto, prometer que haverá uma redação esperando pelo estudante ao final do curso.
Também não basta escrever bem. É preciso conhecer pessoas, encontrar oportunidades, aprender a trabalhar com diferentes linguagens e, cada vez mais, saber criar o próprio espaço de atuação. A antiga ideia de entrar em um jornal, subir lentamente na carreira e permanecer ali durante décadas pertence a um tipo de mercado que praticamente desapareceu. Mesmo quem consegue uma vaga sabe que poderá perdê-la na próxima redução de custos.
A mãe continuava esperando. O garoto também. Eu tinha diante de mim alguém que ainda podia imaginar a profissão sem conhecer suas humilhações, seus salários atrasados, suas jornadas intermináveis e a quantidade de vezes em que o trabalho de uma semana termina publicado sem assinatura ou reduzido a algumas linhas. Pensei em dizer que procurasse outra coisa. Seria, porém, uma resposta covarde. Eu estaria convertendo as minhas frustrações em destino para alguém que mal começara a formar seus desejos.
Pensei então em falar sobre vocação, mas já não confio inteiramente nessa palavra. Chamamos de vocação aquilo que muitas vezes é apenas insistência, necessidade ou incapacidade de abandonar uma atividade que se tornou parte de nós. Há quem possua talento e desista. Há quem permaneça por teimosia. Há também quem descubra muito tarde que amava escrever, mas nunca gostou do jornalismo.
Respirei fundo e respondi:
— Você deve criar um blog o mais rápido possível. Publique com frequência, tente escrever textos mais longos e não espere que alguém mande você escrever. Entreviste pessoas, conte histórias do lugar onde vive, acompanhe as decisões da prefeitura, vá às reuniões da comunidade e preste atenção ao que acontece perto de você. Isso vai ajudá-lo a amadurecer a escrita e lhe dará alguma dimensão do que significa procurar uma informação, conferir o que ouviu e enfrentar a página todos os dias. Se chegar aos 18 anos ainda querendo fazer isso, ao menos saberá que não gosta apenas da imagem do jornalista. Durante esse período, também poderá conhecer melhor o ambiente digital e descobrir se existe alguma maneira de tornar o seu trabalho comercialmente viável.
Enquanto falava, comecei a desconfiar da segurança da minha própria voz. Eu organizava as frases devagar, acrescentando uma recomendação depois da outra, como se o acúmulo de conselhos pudesse esconder a ausência de uma resposta verdadeira. O garoto ouvia em silêncio. A mãe concordava com a cabeça. Quanto mais atenção me davam, mais difícil se tornava interromper aquele pequeno discurso.
O conselho talvez não fosse ruim. Criar um blog, escrever com frequência, entrevistar pessoas e conhecer o lugar onde se vive eram recomendações razoáveis. Eu mesmo gostaria de ter começado mais cedo. Aos 18 anos, o garoto poderia possuir um arquivo considerável de textos, alguma disciplina e uma compreensão menos fantasiosa do trabalho. Talvez descobrisse que queria ser jornalista. Talvez descobrisse justamente o contrário. Em ambos os casos, teria aprendido alguma coisa.
Ainda assim, eu sabia que havia respondido menos para orientá-lo do que para não decepcionar sua mãe e preservar, diante dos dois, a aparência de alguém que conhecia a profissão. Eles não haviam me pedido uma previsão sobre o futuro do jornalismo. Queriam apenas uma frase capaz de confirmar que o sonho do garoto fazia sentido. Eu poderia ter admitido que não sabia. Poderia ter dito que nenhuma experiência profissional nos concede autoridade para decidir o que outra pessoa deve fazer com a própria vida. Em vez disso, improvisei uma pequena lição.
A mãe me agradeceu, apertou minha mão e seguiu com o filho. O garoto se despediu com um sorriso tímido, talvez satisfeito por ter recebido uma tarefa concreta. Por alguns instantes, imaginei que ele realmente criaria o blog. Imaginei também que, dentro de alguns anos, pudesse recordar aquela conversa e concluir que eu estava errado sobre quase tudo.
Fiquei olhando enquanto eles se distanciavam. Sentia-me um embusteiro. Aquele tipo de idiota que diz qualquer coisa que pareça inteligente por medo de admitir que não tem resposta.
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