Na frente, um homem sentado, duas crianças de pé, uma mulher ligeiramente afastada, como se tivesse entrado no enquadramento depois que o fotógrafo já havia decidido o que merecia ser lembrado. No verso, alguém escreveu o nome do homem, a cidade, talvez o ano. A mulher ficou sem identificação. Décadas depois, um descendente passa o dedo sobre aquele rosto e pergunta quem era. Ninguém sabe. Guarda-se a fotografia.
A perda parece pequena. Estamos acostumados a conviver com desaparecimentos desse tamanho. Uma receita cuja autora virou “a avó de alguém”; uma casa que o marido construiu, embora a mulher tenha passado trinta anos pagando suas despesas; um filho que venceu na vida, expressão sob a qual se acumulam roupas lavadas, refeições improvisadas, noites interrompidas e trabalhos que ninguém julgou necessário descrever. A memória familiar tem seus critérios de edição. Frequentemente, herdamos esses critérios junto com os móveis.
Depois, quando alguém tenta corrigir a distribuição dos nomes, surge o receio de que estejam politizando o passado. Como se o passado tivesse chegado até nós intacto, embalado numa neutralidade que só agora começamos a violar. Basta observar uma reunião de família: quem conta a história, quem interrompe, quem é corrigido, quem desiste de terminar a frase. A versão que sobrevive costuma ter alguma relação com essas pequenas disputas.
Ocorre que a reparação também pode empobrecer aquilo que pretende recuperar. Há uma maneira de homenagear as mulheres que consiste em retirar delas tudo o que poderia causar desconforto. Tornam-se fortes, generosas, incansáveis. Sobretudo incansáveis. É uma qualidade conveniente para quem depende do cansaço alheio. A mulher que suportou tudo recebe, depois de morta, o reconhecimento de que era capaz de continuar suportando.
Gostaria de saber em que momento ela quis ir embora.
Mas a verdade é que essa pergunta talvez produzisse uma história menos edificante. Poderia revelar ressentimento, uma crueldade doméstica, uma preferência injusta por determinado filho. Poderia aparecer um desejo que a família consideraria indecente, ou simplesmente ridículo: morar sozinha, gastar dinheiro consigo, acordar tarde num domingo. A homenagem perderia a compostura. Começaríamos a conhecer uma pessoa.
Penso nisso ao ler Sara no Gênesis. Sua presença perturba a facilidade dos retratos exemplares: o sofrimento que atravessa sua vida convive com a violência que exerce contra Hagar. A leitura exige que permaneçamos algum tempo diante dessa dificuldade. O leitor que procura uma santa terá trabalho; aquele que se satisfaz com uma condenação rápida perderá boa parte da personagem.
Na vida comum, raramente concedemos às mulheres esse espaço de contradição. Uma mãe que abandona os filhos parece carregar sozinha a ruína da espécie. Um pai que faz o mesmo pode atravessar décadas sob a classificação relativamente branda de homem complicado. Até a linguagem distribui acomodações.
A literatura me interessa quando demora sobre um gesto que a conversa social resolveria depressa. Uma mulher pode amar o filho e invejar a liberdade dele. Pode cuidar do marido doente enquanto se lembra, com raiva, dos anos em que ele foi saudável. Pode sofrer uma injustiça e cometê-la na manhã seguinte, contra alguém que tem ainda menos recursos para reagir. Sustentar essas possibilidades custa mais ao leitor do que distribuir absolvições.
Por isso é tão frequente confundir reconhecimento com admiração. Queremos acreditar que todas as pessoas apagadas pela história mereceriam, se fossem conhecidas, a nossa estima. Algumas certamente nos decepcionariam. Outras seriam desagradáveis, autoritárias, difíceis de amar. Ainda assim, viveram. O acesso à memória não deveria depender de uma avaliação póstuma de bom comportamento.
Também convém desconfiar da ideia de que chegaremos a recuperar tudo. Os arquivos têm buracos que nenhuma disposição generosa consegue preencher. Uma carta foi queimada; quem poderia explicar aquela mudança de cidade morreu; os filhos ouviram versões incompatíveis e agora defendem cada qual a sua. Há perguntas que chegam tarde. Diante delas, a imaginação precisa reconhecer seus limites, sobretudo quando a vontade de reparar nos tenta a inventar uma vida mais adequada às nossas expectativas.
Resta um trabalho miúdo, quase constrangedor diante da grandeza das palavras que usamos. Perguntar o nome. Registrar uma lembrança com suas hesitações. Ouvir a história que se alonga e perde o rumo. Admitir que aquela mulher talvez estivesse infeliz numa época que todos descrevem como feliz. Deixar que a informação incomode um pouco a sala.
Isso pode acontecer num almoço, quando alguém repete que ela era uma guerreira. Todos concordam. Uma filha, já envelhecida, olha para o prato e diz que a mãe chorava enquanto lavava a louça. A conversa vacila. Sempre haverá quem procure um assunto mais leve.
Eu gostaria que, dessa vez, ninguém mudasse de assunto. Que alguém perguntasse à filha o que ela lembra. Talvez ela não consiga dizer muito. Talvez chore também. E a mulher da fotografia, depois de tantos anos à disposição dos elogios, possa enfim estar cansada.
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