Episódios da Literatura e da História sobre o Antigo Egito



Deixemos de lado as pretensões por um momento. Quando pensamos no Egito Antigo, nossa imaginação geralmente se volta para pirâmides, sarcófagos, a Esfinge e talvez a máscara de Tutancâmon. Alguns podem lembrar da faraó Hatshepsut, seu filho guerreiro-imperialista Tutmés III, o faraó herege Akhenaton e também Ramsés II, o mais poderoso faraó da história do Egito. É nesse ponto que nosso conhecimento geralmente começa a se dissipar. No entanto, o fato de o público em geral saber algo sobre essa antiga civilização é um testemunho das suas realizações extraordinárias. Mostre a alguém na rua uma foto da Máscara de Sargão, o primeiro grande conquistador da Mesopotâmia, e essa pessoa provavelmente não saberá o que está vendo. Apresente uma imagem do Zigurate de Ur, da mesma época, e a reação será semelhante. No entanto, uma imagem das pirâmides no planalto de Gizé, produzida no mesmo milênio, e a resposta será imediata: "Egito".

Os textos que examinaremos, uma vasta coleção de manuscritos e fragmentos de papiro conhecidos coletivamente como O Livro dos Mortos, revelam uma civilização profundamente religiosa, preocupada com a vida após a morte, com um panteão de divindades complexo e uma curiosa predileção por drenar fluidos corporais e envolver corpos em bandagens de linho.

Entretanto, não podemos limitar nossa compreensão do Egito Antigo apenas ao Livro dos Mortos, assumindo que uma civilização que perdurou por 3.000 anos se dedicou exclusivamente a esculpir sarcófagos, embalsamar gatos e venerar estátuas de chacais. O Egito Antigo é muito mais do que uma religiosidade mórbida e mausoléus pontiagudos no deserto. Em algum momento, no futuro, exploraremos alguns de seus contos populares. Apesar de todas as especulações em documentários, páginas da web e livros de história sobre o uso de escravos na construção das pirâmides, a movimentação dos blocos e as rampas de lama, é surpreendente quão pouco se fala sobre a ficção egípcia. Embora não tenhamos muitas histórias do Egito Antigo e elas não sejam tão fotogênicas quanto as pirâmides, as narrativas que possuímos são diversas, reveladoras e extremamente agradáveis de ler.

Lá para o final dessa nossa abordagem sobre o Egito Antigo, focaremos na literatura sapiencial, ou coleções de provérbios, dessa civilização. Estas coletâneas, que podem ter influenciado importantes livros do Antigo Testamento, nos fornecem uma visão sobre a vida cotidiana e a ética do cidadão comum egípcio. Assim, enquanto esta primeira conversa cobre a visão tradicional do Egito – monumental, megalítico e obcecado pela eternidade – as próximas abordagens explorarão a cultura dos outros 99% da população, predominantemente agrária e industriosa.

As pirâmides e os sarcófagos do Egito provavelmente sempre serão o símbolo definitivo desta antiga civilização. No entanto, acompanhe-me pelos próximos textos, e espero que você descubra que um reino que você considera austero, místico e estranho pode também ser acolhedor, perceptivo e familiar. Para desfazer a noção de que os antigos egípcios eram apenas construtores taciturnos de monumentos, o primeiro passo é entender sua religião, uma religião sintetizada no Livro dos Mortos.

Salvação Exclusiva e o Reino Antigo

Diga-me se isto lhe soa familiar: sua existência não é apenas material, mas também espiritual. À medida que você vive, suas ações e escolhas são registradas. No momento da sua morte, sua parte material perece, mas a espiritual continua. Após um breve período, sua alma é julgada conforme a retidão das suas ações na Terra. Se for considerada insuficiente, você estará em apuros. Caso contrário, você irá para um lugar celestial, onde tudo é limpo e luminoso, participa de um banquete e desfruta da companhia divina. Agora, quais adeptos de qual religião acreditam nisso?

É:
  • a) Cristianismo, 
  • b) Islamismo, 
  • c) Antigo Egito a partir do Império Médio, 
  • d) Zoroastrismo, ou 
  • e) todas as opções acima? 

Sim, é E. Todas as opções acima. Nos hieróglifos do antigo Egito, vemos as primeiras noções registradas de uma alma imortal, julgamento divino e uma vida após a morte dicotômica. A principal ideia que quero transmitir neste texto é a noção de julgamento divino. A promessa de que os piedosos e bons serão recompensados e os maus punidos é uma das partes mais atraentes das religiões mencionadas. Em todos os tempos, especialmente em épocas turbulentas, a crença no julgamento póstumo ajuda a lidar com o caos, a injustiça e a aleatoriedade dos acontecimentos que vivenciamos como espécie.

A crença no julgamento divino, registrada pela primeira vez no antigo Egito, foi possivelmente a força mais importante que impulsionou suas realizações na arquitetura, na ciência, na arte e na literatura. Mas esta ideia não surgiu do nada. As noções egípcias de julgamento divino evoluíram lentamente ao longo de centenas de anos. Embora hoje a noção de julgamento divino esteja difundida em todas as culturas, a civilização que primeiro a registrou começou com um conjunto de crenças muito diferente. Voltemos no tempo, ao Antigo Reino do Egito.

Por volta de 2.950 a.C., o Alto e o Baixo Egito foram unificados pela primeira vez. As inundações sazonais confiáveis do Nilo, que depositavam solo rico nas terras além das margens do rio, permitiram excelentes colheitas. O clima árido e a falta de recursos naturais na periferia do Nilo fizeram com que a civilização ribeirinha tivesse, durante o primeiro milênio, poucos vizinhos consideráveis que a ameaçassem. Se o cuneiforme manteve a civilização mesopotâmica culturalmente coesa por 2.500 anos, no antigo Egito, essa força foi o rio.

O que chamamos de Reino Antigo floresceu de cerca de 2.650 a 2.100 a.C. Este período, surpreendentemente precoce na história do Egito, produziu as maravilhas da necrópole de Gizé, perto do atual Cairo – as colossais pirâmides de Khufu e seus sucessores Khafre e Menkaure, e a Esfinge. Pense na pirâmide de Khufu, a estrutura artificial mais alta do mundo por 4.400 anos, até a conclusão da Torre Eiffel em 1889, e você terá uma ideia das crenças religiosas dos primeiros egípcios. É impossível não se impressionar com algumas estatísticas sobre essa pirâmide. Provavelmente foram necessárias 10.000 pessoas para construí-la. Abrange mais de cinco hectares e chega a mais de 146 metros de altura. Está quase perfeitamente orientada para o norte verdadeiro. A pirâmide de Khufu possui poços que atravessam toda a sua extensão – não para ventilação, como se pensava, mas porque esses poços estão alinhados com Sirius, na constelação de Órion, e outras estrelas do norte, que, como as coisas eternas, nunca se põem.

Hoje sabemos que um sistema de trabalhadores sazonais e escravos, juntamente com feitos maravilhosos de engenharia, produziu a pirâmide. Mas que tipo de sistema de crenças motivou sua construção? É aqui que podemos começar com a história da religião do Antigo Egito.

Durante a maior parte do Reino Antigo, acreditava-se que apenas a alma do Faraó era imortal. Portanto, seu embalsamamento, mumificação e sepultamento eram realizados conforme tradições rigorosas para que ele pudesse se juntar aos deuses na vida após a morte. No início do Reino Antigo, o que os egiptólogos chamam de “sacrifício de retentor” era uma prática comum. Djerr, um rei da Primeira Dinastia por volta de 2.900 a.C., foi encontrado com 318 seguidores, todos sacrificados para que pudessem continuar a servir seu rei após sua morte.

Imagine que, ao falecer, o ex-presidente do Brasil, Itamar Franco, todos os membros de seu gabinete fossem executados, juntamente com os congressistas que serviram durante seu mandato. E imagine que, por décadas, o Brasil gastasse a maior parte do seu PIB construindo para ele um monumento do tamanho da cidade de Campinas, para que, na sua morte, ele pudesse se juntar a outros seres celestiais, como Jesus, Maria, José, João Figueiredo e Getúlio Vargas, vivendo juntos por toda a eternidade entre as estrelas circumpolares. Perfeitamente razoável, não? Quanto ao resto de nós, seríamos uma espécie de lodo cósmico, significativo apenas por termos contribuído para a ascensão do nosso líder divino ao éter celestial. Que seres racionais poderiam resistir a um sistema de crenças tão coerente e autocrático?

A analogia pode não ser perfeita. É difícil acreditar que, ao longo de todo o Nilo, homens e mulheres passassem meio milênio cumprimentando-se com entusiasmo ao pensar em seu líder viajando para se juntar aos deuses. Mesmo nas condições despóticas de trabalho do planalto de Gizé em 2515 a.C., encontramos nomes de grupos de trabalho como “Os Bêbados do Rei”, sugerindo que os cidadãos do Reino Antigo eram tão capazes de alvoroço e escárnio quanto nós. Mesmo assim, a religião oficial do Estado, durante centenas de anos, sustentava que apenas um homem possuía uma alma imortal. Um ótimo negócio, se você for esse homem. E, para não pensarmos que a prática de divinizar líderes era tão exótica ou incomum, devemos lembrar que, após Júlio César, declarar que líderes falecidos haviam se juntado aos deuses tornou-se bastante comum durante o Império Romano.

Voltando ao norte da África, além de um monte de pilhas de rochas particularmente impressionantes, o que temos que registre a ideologia do Egito em meados do terceiro milênio? Bem, de um período próximo ao final do Reino Antigo, temos nossos primeiros textos egípcios antigos. Os “Textos das Pirâmides”, datados de 2300 a.C., recebem esse nome porque foram descobertos gravados em paredes e sarcófagos nas pirâmides de Saqqara, cerca de 25 quilômetros ao sul do Cairo, na margem oeste do Nilo. Esses textos consistem em feitiços e encantamentos destinados a salvaguardar os restos mortais do faraó e garantir sua ressureição para se juntar aos deuses. Os Textos das Pirâmides têm a distinção de serem os escritos religiosos mais antigos que conhecemos, embora sejam cronologicamente muito próximos dos hinos escritos pela filha de Sargão, Enheduanna, na Mesopotâmia.

A Democratização da Vida Após a Morte no Antigo Egito

Quanto tempo uma religião que beneficia e glorifica uma única pessoa, às custas de todas as outras, poderia realmente durar? No caso do Egito antigo, durou por seis dinastias, cerca de 800 anos. Algo culturalmente gigantesco aconteceu no Egito quando o Reino Antigo caiu na Idade Média do Bronze. No turbulento período entre 2125 e 1795 a.C., e depois ao longo do Reino Médio, que durou até 1630 a.C., surgiu a noção de que todas as pessoas tinham almas imortais. Após a morte, o ab (coração) de uma pessoa seria julgado pelos deuses. Se essa pessoa tivesse trabalhado em favor do caos e praticado más ações, ela seria devorada e aniquilada para sempre por um terrível monstro chamado Am-met. Se, pelo contrário, tivesse trabalhado em favor da ordem e da bondade, ela iria para campos férteis e belos, cheios de água corrente e da presença dos deuses, recebendo uma propriedade ali. A questão é: quem julgava?

Central neste período da história egípcia era a crença em um deus chamado Osíris. Assassinado e desmembrado por seu irmão perverso, Set, e depois reconstituído por sua irmã e esposa, Ísis, Osíris simbolizava o ciclo de morte e ressurreição que os egípcios acreditavam que todos passavam. Por volta de 2100 a.C., um segundo grupo de escritos egípcios, conhecido como “Textos dos Sarcófagos”, começou a filosofar sobre um lugar sombrio chamado Duat, o equivalente egípcio de Hades ou Sheol. No Duat, os mortos enfrentavam perigos e o julgamento de Osíris, junto com seu conselho, que frequentemente incluía Thoth, o escriba dos deuses, e Anúbis, a divindade com cabeça de chacal que pesava o coração de cada pessoa na balança.

Representações da cena do julgamento aparecem com frequência em artefatos egípcios antigos. De um lado da balança de Anúbis está o coração do falecido, uma espécie de registro condensado de todos os seus atos e pensamentos. Do outro lado, uma pena, simbolizando ma'at, talvez o conceito mais importante e governante do antigo Egito. Ma'at significava, em uma palavra, ordem. Uma ordem natural que regia o universo, definia os ritmos das inundações sazonais, movia o motor dos nascimentos e mortes, e colocava tudo em seu devido lugar, desde os faraós até os grãos de areia. Mais adiante, discutiremos em detalhes o que fazia com que o coração se equilibrasse com a pena de ma'at. Simplificando, ao se comportar com prudência, demonstrar bondade e autocontrole, um antigo egípcio poderia esperar que seu coração estivesse em harmonia com os princípios de ma'at no momento crucial de seu julgamento.

A ideia de que todos os egípcios poderiam ter seus feitos medidos pelos deuses emergiu entre 2100 e 1800 a.C. A imortalidade foi, assim, democratizada no início do Reino Médio, e os textos da época refletem isso. O egípcio médio acreditava que, com a conduta correta em vida, alguns feitiços e rituais bem cronometrados no momento da morte, alguns potes de óleo e comida, e talvez a companhia de alguns animais embalsamados, ele poderia ganhar a aprovação de Osíris e as recompensas de uma existência feliz após a morte. A crença na possibilidade de uma vida após a morte feliz perdurou durante a próxima grande transição política do país.

Os anos entre 1600 e 1000 a.C. viram outro período intermediário e depois a ascensão do Novo Reino. As dinastias do Novo Reino estavam centradas em Tebas, centenas de quilômetros ao sul do Cairo. Foi dentro da necrópole chamada Vale dos Reis que a tumba de Tutancâmon foi descoberta no outono de 1922. É também de Tebas do Novo Reino, ou Luxor dos dias modernos, na margem leste do Nilo, que temos o texto em que nos focaremos agora: O Livro dos Mortos.

Quando li O Livro dos Mortos pela primeira vez, utilizei a tradução de Sir Ernest Alfred Thompson Wallis Budge, editada por John Romer e publicada pela Penguin, que citarei a partir de agora. Sir Ernest Alfred Thompson Wallis Budge incluiu 244 páginas introdutórias antes de chegar ao próprio Livro dos Mortos. Talvez este tradutor esperasse que o leitor morresse de velhice ao ler os prefácios e estivesse em condições adequadas para apreciar o Livro dos Mortos. De qualquer forma, enquanto lia os prefácios, desejei um resumo conciso do Livro dos Mortos, sua origem e conteúdo, e nunca senti que consegui. Então, vou te dar um agora mesmo.

Entre 1600 e 100 a.C., os egípcios que podiam pagar eram enterrados com textos de feitiços e encantamentos, geralmente acompanhados de ilustrações, impressos em sarcófagos, papiros ou mortalhas de linho. No total, descobrimos 192 feitiços, ou "capítulos" do que chamamos de Livro Egípcio dos Mortos. Durante a maior parte de sua existência, o Livro dos Mortos foi uma coleção diversa e não padronizada desses feitiços ou capítulos, que em grande parte se acreditava ter sido escrita pelo deus escriba, Thoth. Se você fosse rico, obteria muitos deles com ilustrações luxuosas. Se fosse da classe média, obteria os feitiços mais necessários. Se fosse pobre, ficava sem sorte. Os hieróglifos em pergaminhos eram a especialidade dos escribas bem treinados, e os grandes livros estavam além da faixa de preço da maioria dos egípcios. A edição Penguin do livro agora contém 992 páginas. Imagine copiar isso com uma biblioteca de 2.000 caracteres de hieróglifos ornamentados, produzindo centenas de ilustrações de acompanhamento, tudo isso em juncos entrelaçados de uma planta. Se você pudesse fazer isso, gostaria de uma ampla compensação, pelo menos alguns barris de cerveja de cevada do Antigo Egito.

Assim, basicamente, isso descreve O Livro dos Mortos. Nós o temos em muitos pacotes e fragmentos, e é uma enciclopédia, completa com um número estonteante de deuses, espíritos, orações e rituais mágicos, capturando mais de três mil anos de crenças da civilização sobre a morte e a vida após a morte.

Os egípcios chamavam seus escritos funerários de "Os capítulos do surgimento durante o dia", baseados na ideia de que o espírito deixa o corpo no dia da morte, vagueia a noite toda e retorna ao corpo na manhã seguinte. Essa partida e retorno do círculo, semelhante à jornada noturna do deus sol , exigia a preservação cuidadosa dos restos mortais da pessoa.

Não temos tempo para ler todos os 192 capítulos do texto mais famoso do Egito. Mesmo que o fizéssemos, penso que acharíamos sua repetitividade menos fascinante e seu politeísmo composto impenetrável. Vamos focar nos momentos mais importantes do livro e em alguns de seus principais emblemas e motivos. Acho que, no final dessa conversa, você terá uma compreensão decente de onde a noção extremamente importante do julgamento divino aparece pela primeira vez nos escritos da humanidade.

Antes de começarmos a ler este livro, há duas coisas a saber. Primeiro, a tradução de Budge é a mais influente literariamente, e é por isso que a utilizo. No entanto, Budge traduz para o inglês do século XVII, de modo que o livro soa como a Bíblia do Rei James. Ao citar a edição Penguin de 2008, modernizarei a prosa de Budge. A segunda coisa é um fato simples sobre a estrutura do livro em si. A maioria dos capítulos do livro contém o que chamamos de “rubricas”. Uma “rubrica” explica como um capítulo deve ser usado. Por exemplo, a rubrica do Capítulo 1 diz ao leitor que, se uma pessoa conhecer o texto do Capítulo 1 enquanto estiver viva e se o Capítulo 1 estiver estampado em seu caixão, ela será capaz de atravessar o submundo, encontrar sua morada no céu e desfrutar de todas as recompensas ali. As rubricas costumam ser muito específicas, explicando exatamente como os feitiços devem ser recitados para afastar corretamente o mal, a corrupção, a decadência e esse tipo de coisa.

Agora você sabe de onde veio O Livro dos Mortos, seu conteúdo básico e os fatos essenciais sobre sua estrutura. Vamos abri-lo e ver o que tem dentro.

Mas isso fica para a nossa próxima conversapróxima conversa.

José Fagner Alves Santos


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