As sociedades modernas gostam de imaginar que escolheram deliberadamente seus símbolos e valores; que as nações são obras de engenharia racional e que a lealdade coletiva pode ser decretada ou abolida conforme a conveniência intelectual de cada época. É um engano confortável. A maior parte do que sustenta um país — e, por vezes, a única parte que o sustenta — escapa ao controle das crenças conscientes. A identidade nacional é menos um projeto do que um resíduo: restos de memórias, hábitos, tradições e mitos que persistem apesar da razão, não por causa dela.
Em países onde a modernização ocorreu como sucessão de rupturas e não como sedimentação lenta, os símbolos nacionais tendem a parecer caricaturas. Não porque sejam intrinsecamente falsos, mas porque perderam a função que um dia exerceram. A ironia — mal disfarçada, quase sempre automática — com que muitos brasileiros tratam sua própria história revela mais do que uma simples irreverência juvenil: expõe um vazio. Onde a continuidade histórica foi fragmentada, os símbolos tornam-se objetos estranhos, como relíquias de um culto desaparecido. Resta zombar deles ou transformá-los em adereços ocasionais, úteis apenas para festas esportivas e campanhas publicitárias.
O contraste com sociedades que tiveram de encarar suas tragédias sem a proteção de ilusões consoladoras é instrutivo, mas não exatamente edificante. Nessas culturas, o que se chama de patriotismo costuma ser apenas a memória sedimentada de violências sucessivas, não uma virtude cívica. As narrativas comuns que emergem desses choques não expressam coesão moral, mas a necessidade humana de converter o sofrimento em sentido. O caso americano ilustra isso: sua coesão não nasce de fé no progresso — um mito tão frágil quanto qualquer outro — e tampouco de alguma benevolência estatal. É produto de guerras internas, expulsões, tensões raciais e disputas religiosas que continuam a moldar a vida cotidiana. Se existe ali um sentimento de pertencimento, ele não é sinal de esclarecimento, mas de uma tradição de conflitos repetidos o bastante para parecerem um destino compartilhado. A lealdade, nesses contextos, não passa de um reflexo de sobrevivência.
O Brasil, como muitos países cuja modernidade foi recebida “de fora”, jamais completou o processo de transformar memória comum em autoconsciência histórica. O que existe é uma sucessão de episódios mal costurados — golpes, reformas improvisadas, grandes projetos nacionais que evaporam tão rapidamente quanto surgem. Num cenário assim, a ironia torna-se o afeto dominante, não porque o povo seja mais lúcido, mas porque não encontrou ainda um enredo ao qual se vincular.
Há, no entanto, pequenas zonas de continuidade — e são elas que costumam gerar perplexidade nos observadores. Comunidades de imigrantes, que conhecem de perto horrores que a maioria dos brasileiros só imagina em abstrações escolares, veem no país um refúgio. Sua gratidão nasce do contraste. Os militares, por sua vez, formam uma casta anacrônica no sentido literal: vivem num regime temporal diferente. Suas instituições preservam uma narrativa nacional contínua — não necessariamente verdadeira, mas estável — num ambiente social onde quase tudo é transitório. Seu patriotismo não é uma ideologia: é um hábito, um costume transmitido entre gerações, como um artesanato moral. Numa civilização de curto prazo, são vestígios de uma era em que o dever ainda podia significar alguma coisa.
Mas não se deve romantizá-los. Tradições que sobrevivem ao seu próprio contexto podem tornar-se perigosas; podem reinterpretar o passado à sua conveniência, assim como fazem os seus críticos. A disputa por narrativas — a tentativa de controlar não apenas o futuro, mas também o passado — é inevitável. Em sociedades sem raízes profundas, porém, essa disputa assume proporções desproporcionais. A memória torna-se um campo de batalha onde a cada geração o passado é reescrito, não para esclarecer, mas para legitimar novos grupos de poder.
A ilusão do progresso histórico — essa crença segundo a qual sociedades avançam linearmente rumo a uma condição mais livre, justa ou consciente — só agrava o problema. Imagina-se que a irreverência com símbolos nacionais seja o resultado de uma maturidade recém-alcançada. Não é. É apenas a expressão de uma ordem social que perdeu a continuidade que torna tais símbolos inteligíveis. Onde não há memória partilhada, resta a sátira; onde não há tradição viva, resta a nostalgia ou a manipulação.
Se há uma lição a ser tirada, é talvez esta: nações não se sustentam por escolhas racionais, mas por formas de vida que não podem ser projetadas ou abolidas por decreto. O patriotismo não é virtude quando imposto, nem superstição quando espontâneo. É apenas um modo de reconhecer que nenhum indivíduo existe sozinho no tempo — que nossas biografias dependem de histórias que não escrevemos. A verdadeira decadência de uma sociedade não está em deixar de acreditar em seus símbolos, mas em esquecer o que esses símbolos tentavam exprimir.
Num mundo governado por narrativas instantâneas, preservar qualquer memória profunda — civil ou militar, religiosa ou secular — torna-se um gesto de resistência. Não para restaurar um passado idealizado, mas para impedir que o presente se torne inteiramente arbitrário. Sem esse fio de continuidade, toda forma de vida coletiva dissolve-se no curto prazo. E então não haverá símbolos dos quais rir — apenas slogans a serem repetidos.

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