Há lembranças que permanecem conosco por razões que escapam à lógica. Santo Agostinho dizia que a memória é um vasto palácio onde repousam coisas que já deixaram de existir. Costumo pensar que ela também possui um senso de humor bastante peculiar. Entre tantas cenas da infância que poderiam ter sobrevivido ao tempo, uma das que insistem em voltar é a do meu tio Neilton me acordando depois da meia-noite para dividir um pedaço de pizza enquanto assistia a Porky's – A Casa do Amor e do Riso, num daqueles programas da madrugada, talvez o Corujão, talvez outro qualquer. O nome do programa se perdeu. A cena permaneceu intacta.
Era o final da década de 1980. Minha avó havia comprado, fazia pouco, um televisor de quatorze polegadas. Hoje parece um objeto insignificante. Naquele tempo era quase um acontecimento doméstico. Neilton trabalhava num trailer de lanches em frente ao Rio Novo Tênis Clube e voltava para casa já de madrugada. Trazia refrigerantes, sanduíches, pizza, qualquer coisa que tivesse sobrado. Depois ia até a cama onde eu dormia, sacudia meu ombro com delicadeza e dizia que havia comida. Toda criança acredita que existe uma forma secreta de felicidade. A minha, durante algum tempo, chegava depois da meia-noite.
Naquela noite a televisão exibia Porky's. Quem cresceu nos anos imediatamente posteriores ao fim da ditadura talvez se lembre da solenidade com que a censura ainda sobrevivia nos avisos da programação. Antes do filme, uma voz grave informava aos pais que aquela obra era proibida para menores de dezoito anos. Eu devia ter sete ou oito.
Na manhã seguinte, fiz o que qualquer menino faria. Reuni a molecada da rua e comecei a narrar, com a riqueza de detalhes que só a imaginação infantil consegue produzir, tudo aquilo que julgava escandaloso. Meus ouvintes permaneciam imóveis, hipnotizados. Durante alguns minutos experimentei uma sensação rara: eu era o único proprietário de um conhecimento proibido.
A plateia começou, então, a olhar para trás de mim. Primeiro um, depois outro, até que todos exibiam a mesma expressão de pânico. Continuei falando, incapaz de compreender o motivo daquele silêncio repentino. Quando me virei, encontrei minha mãe parada, braços cruzados. A pergunta veio seca: quem havia permitido que um menino assistisse àquele filme? A resposta foi igualmente simples. Sobrou para Neilton.
Ele me deu um carrinho de pedal, um Ferrorama e boa parte das histórias que ainda hoje conto. Cresceu ao meu lado como se fosse um irmão mais velho, apresentando o mundo por caminhos que os pais jamais escolheriam. A literatura costuma dividir seus personagens entre heróis e vilões. A vida raramente concede esse conforto. Neilton acumulava virtudes e ruínas na mesma proporção. Nunca assumiu plenamente a responsabilidade pelos filhos, rompeu com quase toda a família, cultivou hábitos que lentamente o destruíram. Montaigne observava que cada homem carrega "a forma inteira da condição humana". Talvez por isso seja tão difícil resumir alguém em meia dúzia de adjetivos. Somos feitos de contradições muito antes de sermos feitos de convicções.
Hoje pela manhã recebi uma mensagem de voz da minha tia Telma.
"Fagner, bom dia. Neilton acabou de partir."
Eu já esperava essa notícia. A doença vinha anunciando seu trabalho com a paciência de quem nunca falha. Mesmo assim fui para o quarto chorar, longe dos olhos de minha mãe. Cada família desenvolve seu próprio idioma para lidar com a dor. Na minha, muitas vezes o amor assume a forma do silêncio.
Antonio Candido escreveu que a literatura humaniza porque amplia nossa capacidade de compreender a complexidade do outro. Talvez a memória faça algo semelhante. Com o passar dos anos ela deixa de distribuir medalhas e condenações. Passa apenas a conservar aquilo que resistiu ao desgaste do tempo. Curiosamente, o que resistiu em Neilton nunca foram seus erros. Foram as madrugadas, a pizza, o carrinho de pedal, o Ferrorama, as risadas, a sensação infantil de que o mundo ainda cabia inteiro dentro de uma sala iluminada por um televisor pequeno.
Marcel Proust percebeu que o passado nunca permanece onde acreditamos tê-lo deixado. Ele reaparece inteiro quando um sabor, um cheiro ou uma imagem lhe abre passagem. Hoje descubro que ouvir a voz da minha tia bastaria para que quarenta anos desabassem sobre mim de uma só vez.
A morte sempre chega com um significativo raio de destruição. Cada pessoa desaparecida encerra um arquivo que ninguém mais será capaz de consultar. Certas piadas deixam de fazer sentido. Certas histórias perdem a única testemunha capaz de confirmá-las. Certos apelidos deixam de existir porque já não há quem os pronuncie. Morre uma pessoa, e junto dela desaparece uma maneira particular de enxergar o mundo.
Eu não chorava por Neilton. Chorava pelo menino que acordava de madrugada acreditando que a felicidade tinha cheiro de pizza requentada. Chorava pela casa da minha avó, pela televisão de quatorze polegadas, pela rua onde todos se conheciam, pelo tempo em que a morte parecia um acontecimento reservado aos velhos.
Borges escreveu que "somos nossa memória". Talvez tenha exagerado. Somos também aquilo que a memória perde, aquilo que ela deforma e aquilo que decide preservar sem nos consultar. Ainda assim, cada morte arranca uma página desse livro invisível que carregamos desde a infância. Chega um momento em que percebemos que estamos assistindo, em silêncio, ao lento desaparecimento do mundo que nos fez existir.
E é essa a forma mais cruel da finitude. A morte jamais se contenta em levar um homem. Ela entra de mãos vazias e sai carregando uma época inteira. O que fica para os vivos é a tarefa impossível de habitar um mundo onde continuam existindo as ruas, as casas e as fotografias, enquanto o único lugar capaz de reunir todos aqueles que amamos passa a ser a memória. E a memória, como toda biblioteca antiga, um dia também fechará as portas.
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Meus sentimentos. Esse texto me lembrou do meu tio Eduardo. Embora ele more em Ibirataia, não consegui juntar forças para revê-lo junto às demais pessoas da família. A gente se afasta tanto dos familiares que fica uma nostalgia de algo que nem existe mais ou talvez só existiu na nossa imaginação de criança. Porém, a minha gratidão pelas boas memórias afetivas criadas pelo meu tio permanece e talvez em virtude dessas memórias é que tentamos uma reaproximação, mesmo conscientes da diferença entre a pessoa que nos tornamos e os nossos familiares.
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