Enquanto a morte não chega



Na semana passada encontrei Rafael em São Paulo. Ele está fazendo uma coisa que admiro cada vez mais: decidiu ler alguns dos grandes clássicos da literatura. Não sei se existe hoje muita gente disposta a fazer isso voluntariamente. Há sempre alguma coisa mais urgente para ver, responder, assistir ou acompanhar. Um livro de quinhentas, oitocentas, mil páginas parece quase uma provocação em uma época em que reclamamos de um vídeo de cinco minutos.

Rafael está lendo Guerra e Paz.

Nos encontramos na capital e fizemos aquilo que sempre fazemos quando estamos juntos: andamos bastante, conversamos mais ainda e fomos comer. Passamos pela Augusta, pela Avenida Paulista, paramos em pizzaria, depois fomos a uma casa de ramen. São Paulo estava naquela sua forma habitual, cheia de gente que parece estar atrasada para alguma coisa. Em meio a uma conversa e outra, Tolstói apareceu.

Rafael me falou de uma passagem envolvendo o príncipe Andrei e uma reflexão que o livro provoca sobre a vida e a morte. Em seu sonho, Andrei percebe que vai morrer. E, diante dessa certeza, algumas coisas que antes pareciam importantes simplesmente deixam de importar.

A hierarquia perde o sentido. O status perde o sentido. A honra perde o sentido. Tudo aquilo que, enquanto estamos vivos, parece tão capaz de organizar nossa existência revela uma espécie de fragilidade quando colocado diante da morte.

Fiquei pensando nisso enquanto continuávamos andando.

É curioso como precisamos de tão pouco para esquecer que vamos morrer. Basta uma segunda-feira.

Acordamos, tomamos café, verificamos o celular, respondemos mensagens, trabalhamos, reclamamos de alguma coisa, fazemos planos, pensamos no dinheiro, na carreira, no que precisamos comprar, no que alguém disse sobre nós. Passamos horas preocupados com pessoas que provavelmente estão preocupadas com outras pessoas que, por sua vez, estão preocupadas conosco.

E seguimos.

De vez em quando alguém morre. Então lembramos.

Durante alguns dias, a morte parece muito próxima. Falamos sobre como a vida é breve, como devemos aproveitar mais o tempo, como não vale a pena guardar ressentimentos. Fazemos algumas promessas a nós mesmos. Depois a rotina retorna e a morte volta para o lugar habitual: uma coisa que sabemos intelectualmente e esquecemos praticamente.

Não sei se existe outro modo de viver.

Se tivéssemos consciência permanente da morte, talvez não conseguíssemos fazer quase nada. Como trabalharíamos oito horas por dia sabendo, a cada minuto, que estamos desperdiçando uma parte irrecuperável da única vida que temos? Como pagaríamos uma conta, esperaríamos um ônibus ou perderíamos meia hora discutindo sobre uma coisa absolutamente irrelevante?

A vida depende de certa inconsciência. Precisamos esquecer que estamos vivos para conseguir viver. O problema é que, às vezes, esquecemos demais. A conversa com Rafael me fez pensar em quanto tempo gastamos tentando conquistar coisas que só parecem importantes porque estamos olhando para elas de muito perto. Um cargo. Uma posição. Um título. O reconhecimento de alguém. A necessidade de provar que somos bons em alguma coisa. A vontade de vencer uma discussão que ninguém lembrará daqui a cinco anos.

Enquanto estamos dentro dessas pequenas disputas, elas parecem enormes. É preciso sair um pouco da própria vida para perceber isso.

Os romances fazem esse serviço de uma maneira curiosa. Colocamos um livro no colo e acompanhamos durante centenas de páginas pessoas que viveram há muito tempo. Elas amaram, tiveram medo, fizeram planos, cometeram erros, perderam dinheiro, tiveram filhos, brigaram, fizeram guerra, se reconciliaram, adoeceram e morreram.

Nós sabemos que elas vão morrer.

Elas, quando estão vivendo a história, não sabem.

Essa é uma das coisas mais estranhas da literatura. O leitor possui uma espécie de conhecimento que os personagens não possuem. Vemos a vida deles de fora. Sabemos que determinada preocupação vai passar. Sabemos que aquela paixão talvez não seja tão importante quanto parece. Sabemos que aquela pessoa que ocupa todas as páginas de determinado capítulo desaparecerá algumas páginas depois.

E, durante a leitura, às vezes percebemo que fazemos exatamente a mesma coisa. Estamos sempre tratando o capítulo em que estamos como se fosse o livro inteiro.

É isso que a morte faz quando se aproxima. Ela nos obriga a enxergar a vida como um livro que tem um número limitado de páginas. Não sabemos quantas restam.

Essa é a parte mais incômoda.

Se soubéssemos que morreríamos aos oitenta anos, poderíamos fazer algumas contas. Aos cinquenta, pensaríamos no que ainda daria tempo de fazer. Aos sessenta, talvez escolhêssemos melhor. Aos setenta, provavelmente começaríamos a abandonar algumas coisas.

Mas não sabemos.

Um homem de vinte anos pode morrer amanhã. Um homem de oitenta pode viver mais dez anos. A morte não parece muito interessada em nossos planejamentos.

E é por isso a maioria de nós vive como se tivesse uma quantidade infinita de tempo.

Adia uma conversa. Adia uma viagem. Adia um livro. Adia um pedido de desculpas. Adia aquele projeto que parece importante. Adia até mesmo a própria vida, como se houvesse sempre um momento mais adequado para começar a vivê-la.

O mais estranho é que, sabemos que isso é uma ilusão e, ainda assim, precisamos dela.

Naquela noite, depois de caminhar por São Paulo, comer e conversar, fiquei pensando que a grande questão não é exatamente o que fazer diante da morte. Não sei se existe uma resposta para isso. A morte é uma coisa muito grande para caber numa resposta.

A questão talvez seja outra: o que fazemos enquanto ela não chega?

Rafael estava lendo Tolstói. Eu fiquei pensando que é por isso que os clássicos continuam sendo importantes. Porque algumas perguntas não envelhecem.

Tolstói morreu há mais de um século. O mundo em que escreveu Guerra e Paz desapareceu. O império russo desapareceu. A aristocracia que ocupa tantas páginas do romance desapareceu. As guerras mudaram de forma. As cidades mudaram. A tecnologia mudou completamente a maneira como vivemos.

A morte, não. Continuamos morrendo da mesma maneira. E continuamos cometendo o mesmo erro: acreditando que aquilo que ocupa nossa atenção hoje merece necessariamente a quantidade de vida que estamos entregando a isso.

Penso que seja impossível corrigir completamente esse erro.

Amanhã vou acordar e provavelmente esquecerei tudo isso. Vou me preocupar novamente com coisas pequenas. Vou responder mensagens, pensar em trabalho, reclamar de alguma coisa, fazer planos. Rafael continuará lendo Guerra e Paz. Talvez encontremos algum dia outra passagem de Tolstói para discutir.

E será bom.

Porque viver não consiste em permanecer o tempo inteiro consciente da morte. Creio que consista em permitir que, de vez em quando, essa consciência interrompa a rotina e nos faça olhar novamente para aquilo que estamos fazendo.

Naquela noite em São Paulo, depois de tantas conversas, fiquei com uma pergunta que não consegui responder.

Se soubéssemos que morreríamos em breve, o que deixaríamos de fazer?

E, mais importante ainda:

por que precisamos imaginar a morte para perceber que algumas coisas já não deveriam ocupar tanto espaço na vida?

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