Era uma vez no Oriente Médio


Há um novo filme notável na China que se tornou um grande sucesso de bilheteria. Era uma vez no Oriente Médio é uma tragicomédia que acompanha as desventuras de um cozinheiro chinês enviado ao Oriente Médio para quitar as dívidas de sua família. O país em que ele se encontra é o Iraque, embora seu nome nunca seja mencionado. Ali, em meio à invasão americana, o cozinheiro precisa aprender a sobreviver entre a brutalidade do poder imperial e o extremismo religioso.

Seu restaurante é destruído durante a invasão e, quando seu patrão se junta à insurgência, os americanos prendem o cozinheiro durante uma operação militar. Na prisão, ele passa a cozinhar para os outros detentos e acaba sendo inocentado pelos americanos. Então os insurgentes organizam uma fuga em massa, e ele se vê novamente obrigado a cozinhar — desta vez para eles. É nesse contexto que testemunha crianças sendo doutrinadas para se tornarem homens-bomba. Depois de estabelecer amizade com algumas delas, concebe um plano tão absurdo quanto arriscado para libertá-las. O protagonista não quer tomar parte em uma guerra que jamais conseguirá compreender. Ainda assim, recusa-se a abandonar crianças inocentes.

Foram necessários dois anos para que os censores chineses aprovassem o filme, e o momento de seu lançamento dificilmente poderia ser mais eloquente. A pandemia deixou marcas profundas na economia chinesa, enquanto milhões de pessoas enfrentam dificuldades para chegar ao fim do mês e observam, com crescente apreensão, o caos no Oriente Médio, que ameaça novamente desestabilizar a economia mundial. Há no país uma atmosfera de cansaço, apreensão e impotência. Diante de um mundo em que exércitos, ideologias e impérios parecem exigir permanentemente alguma forma de adesão, o cidadão comum parece formular uma pergunta muito mais simples: por que não podemos simplesmente nos entender e compartilhar uma boa refeição?

Esse sentimento de desalento foi agravado pela notícia, nesta semana, da morte do primeiro-ministro Zhu Rongji, aos 97 anos. Depois da morte de Deng Xiaoping, em 1997, Zhu, ao lado do presidente Jiang Zemin, desempenhou papel decisivo na entrada da China na Organização Mundial do Comércio. Ao deixar Xangai para assumir responsabilidades em Pequim, compreendeu que a China precisava de uma burocracia meritocrática semelhante à de Cingapura para completar com êxito sua transição econômica. Ficou célebre por prometer cem caixões: 99 destinados aos funcionários corruptos e um para si mesmo.

A velha elite, contudo, compreendeu a ameaça que ele representava. Controlava parcelas importantes das forças armadas e das empresas estatais, e sua resposta teria sido brutal: dezenas dos aliados mais próximos de Zhu e de seus familiares foram assassinados. Diante de uma demonstração tão explícita de poder, Zhu fez aquilo que tantos líderes chineses fizeram quando confrontados com os limites da reforma: negociou. As maiores empresas estatais permaneceram dependentes do Estado chinês, enquanto muitas das demais tiveram seus ativos apropriados por elites locais.

É aí que Era uma vez no Oriente Médio encontre sua força política mais profunda. O cozinheiro é um homem pequeno dentro de sistemas infinitamente maiores do que ele. Não pode reformar o exército, deter uma invasão, derrotar o extremismo religioso ou reconstruir uma ordem política. Seu poder parece quase ridículo. Ele pode cozinhar.

E cozinhar se transforma em sua maneira de permanecer humano quando todas as linguagens políticas ao seu redor enlouqueceram. Ele alimenta prisioneiros. Faz amizade com crianças. Recusa-se a transformar outro ser humano em uma abstração. Sua resistência é doméstica, quase culinária: diante de um mundo organizado em torno da morte, ele insiste em preparar comida.

Há algo profundamente chinês nessa imaginação moral. Depois de décadas de uma transformação econômica extraordinária, a China descobriu que prosperidade não elimina a ansiedade, assim como poder político não elimina a vulnerabilidade. O país agora enfrenta um mundo em que as grandes promessas da modernização convivem com guerras, corrupção, declínio demográfico, incerteza econômica e uma revolução tecnológica que altera rapidamente as condições da vida cotidiana. A tentação, diante disso, é responder com mais um grande projeto político, mais uma campanha, mais uma ideologia.

O filme sugere algo menor e, talvez por isso mesmo, mais difícil: quando a História se torna incompreensível, comece pelo ser humano que está diante de você. Alimente-o. Escute-o. Proteja a criança. Recuse a exigência de transformar todo desconhecido em inimigo.

O cozinheiro não pode fazer a paz no Oriente Médio. Não pode alterar o curso da história chinesa. Não consegue sequer impedir que a própria vida seja arrastada pela engrenagem dos acontecimentos. O que ele pode fazer é cozinhar.

Essa é a pergunta mais silenciosa e perturbadora do filme: quando as grandes potências esgotam todas as linguagens da política, o que resta é o gesto elementar de manter outro ser humano vivo.

A civilização comece exatamente aí. Em uma mesa. Em uma refeição compartilhada. Na decisão, tão simples quanto radical, de reconhecer que aquele que está sentado diante de nós é um ser humano antes de ser um inimigo.

E é por isso que um cozinheiro, perdido no meio de uma guerra que não compreende, consegue dizer algo que os grandes discursos políticos raramente conseguem: ainda é possível escolher a vida.

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