Resenha — Um Pato Amado É Assado: escrever para pensar



Há algo de profundamente irônico no título Um Pato Amado É Assado, de Lydia Davis. A frase parece saída de um jogo infantil, de uma associação absurda de palavras ou de uma dessas pequenas anomalias linguísticas que passam despercebidas quando lemos depressa. É justamente aí que começa a literatura de Davis: na atenção ao que a linguagem pode produzir quando deixamos de exigir dela apenas clareza, funcionalidade e finalidade. Publicado no Brasil pela WMF Martins Fontes, na coleção Errar Melhor, com tradução de Camila von Holdefer, o livro reúne ensaios sobre a escrita e oferece algo mais que um conjunto de técnicas: uma reflexão sobre aquilo que precisamos preservar dentro de nós para que a escrita ainda seja possível.

Aos 79 anos, Lydia Davis pertence àquele grupo cada vez mais restrito de escritores cuja autoridade deriva da radicalidade com que transformaram a própria relação com a linguagem. Vencedora do Man Booker International em 2013, ao lado de nomes como Philip Roth, Chinua Achebe e Alice Munro, Davis construiu uma obra difícil de classificar. Seus textos podem ter poucas linhas, às vezes uma única frase, e frequentemente escapam às categorias convencionais do conto, do poema ou do ensaio. É uma literatura que encontrou na brevidade uma forma de expansão.

O novo livro nasce dessa experiência. Um Pato Amado É Assado não apresenta a escrita como uma habilidade que possa ser adquirida mediante um repertório de fórmulas. Davis desloca a questão para um território mais exigente: antes de aprender a escrever, é preciso aprender a perceber. O escritor precisa desenvolver a curiosidade, a capacidade de discernimento, a atenção às coisas e uma disposição permanente para manter a mente aberta. O instrumento da escrita, nesse sentido, é o próprio escritor. Uma prosa limitada começa numa percepção limitada.

Essa ideia ganha uma dimensão especialmente perturbadora quando colocada diante do presente. Davis observa que estamos sendo treinados para a dispersão. Celulares, televisão, internet e, mais recentemente, inteligência artificial constituem um ambiente no qual a atenção se fragmenta continuamente. O problema, para ela, ultrapassa a distração cotidiana: a perda da concentração atinge uma das condições fundamentais do pensamento e, consequentemente, da escrita. Alguns de seus alunos, conta a autora, consideram quase impossível permanecer sozinhos com os próprios pensamentos. O que acontece com uma pessoa que já não consegue permanecer tempo suficiente consigo mesma para descobrir o que pensa?

O livro passa a adquirir uma dimensão cultural mais ampla. Davis não trata a inteligência artificial como uma entidade demoníaca responsável por todos os males contemporâneos. Sua preocupação é mais interessante porque está voltada para o processo. A IA aparece como parte de uma longa transformação dos modos de atenção, de leitura e de produção intelectual. A televisão já havia contribuído para uma certa uniformização do discurso; a internet acelerou a circulação de informações; a inteligência artificial acrescenta uma nova camada ao problema ao oferecer textos, respostas e formulações prontas.

Para uma escritora, isso toca o núcleo da atividade criativa. Se escrever significa também pensar, entregar à máquina a formulação do pensamento pode significar terceirizar uma parte importante do próprio processo de elaboração intelectual. Davis chega a uma formulação particularmente forte: não se pode tomar a originalidade emprestada. A frase funciona como uma espécie de princípio ético de sua literatura. O escritor precisa encontrar aquilo que só pode vir de sua experiência, de sua percepção, de suas obsessões e de sua maneira particular de olhar para o mundo.

Essa defesa da individualidade explica também sua resistência ao rótulo de “experimental”. Davis prefere começar sem saber exatamente o que está fazendo. Numa compreensão bastante particular do ato de escrever: o texto não precisa obedecer a um projeto previamente determinado. Escrever pode ser uma forma de investigação. O escritor começa com uma frase, uma imagem, uma percepção e segue adiante até descobrir onde aquilo termina. A forma nasce do percurso.

O conselho parece paradoxal numa época obcecada por produtividade. Hoje, escrever costuma ser apresentado como uma atividade que pode ser otimizada: escolher um tema, estabelecer uma estrutura, produzir, revisar, publicar. Davis introduz uma variável que não combina facilmente com esse modelo: o tempo da descoberta. Seu procedimento pressupõe demora, hesitação, atenção e disponibilidade para aquilo que ainda não sabemos.

Por isso, uma das recomendações mais interessantes do livro consiste em afastar-se, durante algum tempo, daquilo que está sendo produzido no presente. Davis aconselha os escritores a lerem obras antigas. “Você já pertence ao seu tempo”, afirma. A formulação contém uma crítica implícita ao circuito contemporâneo de referências, no qual todos leem simultaneamente os mesmos livros, comentam os mesmos autores e participam das mesmas tendências. A consequência pode ser uma literatura cada vez mais sincronizada consigo mesma, produzida dentro de um repertório compartilhado.

Seu conselho é quase uma provocação: para escrever algo singular, talvez seja necessário escapar daquilo que todos estão lendo.

Sendo assim, a presença de Machado de Assis e Clarice Lispector em sua formação brasileira é reveladora. Davis encontrou em Memórias Póstumas de Brás Cubas uma inspiração para o uso de capítulos curtos e reconheceu em Clarice a força de uma “sensibilidade bizarra” e de vozes narrativas estranhas. Ler outros escritores significa ampliar as possibilidades da própria percepção.

É justamente essa liberdade que Joca Reiners Terron, responsável pela publicação do livro na coleção Errar Melhor, identifica na obra de Davis. Sua escrita escapa aos “chiqueirinhos” literários. A expressão nomeia a necessidade de classificar tudo para que possamos comercializar, ensinar, catalogar e consumir. Davis escreve textos que podem ser ficções, reflexões, anotações, narrativas, observações ou qualquer combinação dessas coisas. Sua literatura encontra liberdade justamente na recusa da classificação.

Os pequenos textos de Davis tornam essa concepção concreta. “A Insônia” transforma uma dor corporal numa hipótese absurda sobre a cama. “A Mosca” acompanha um inseto dentro de um ônibus como se registrasse a trajetória clandestina de um passageiro. “Ideia para um Documentário de Curta-Metragem” reduz uma situação potencialmente absurda a uma frase. Em poucas palavras, esses textos produzem uma mudança de perspectiva. A economia verbal obriga o leitor a participar dela.

É por isso que a brevidade de Davis não deve ser confundida com facilidade. Escrever pouco pode exigir uma atenção muito maior do que escrever muito. Cada palavra passa a carregar uma responsabilidade particular. A frase precisa conter o pensamento, o ritmo, a imagem e aquilo que permanece depois dela. A concisão de Davis é uma disciplina da percepção.

Um Pato Amado É Assado nos lembra que escrever começa no modo como olhamos para o mundo. Ao revisar uma frase, Davis observa, revisamos também o pensamento que nela está contido. A escrita torna-se, assim, uma espécie de instrumento de afinação intelectual.

O livro chega ao Brasil num momento particularmente oportuno. Quando ferramentas capazes de produzir textos em segundos se tornam cada vez mais acessíveis, Davis devolve à discussão uma pergunta anterior à tecnologia: por que escrever? Se a finalidade fosse apenas produzir frases corretas, informativas e bem organizadas, talvez a máquina já fosse suficiente. A literatura começa a parecer necessária exatamente no lugar em que essa resposta deixa de bastar.

Escrever, na perspectiva de Lydia Davis, é permanecer tempo suficiente diante de uma frase para descobrir o que realmente pensamos. É observar uma mosca no fundo de um ônibus, estranhar uma cama durante uma noite de insônia, começar uma narrativa sem saber onde ela terminará. É cultivar uma atenção que o mundo contemporâneo parece empenhado em fragmentar.

Por isso, Um Pato Amado É Assado chega como uma pequena defesa da interioridade. Num ambiente saturado de respostas instantâneas, Davis reivindica o direito à pergunta, à demora e à descoberta. Seu conselho mais profundo é também o mais simples: antes de escrever melhor, precisamos aprender a pensar melhor. E, para pensar melhor, precisamos recuperar a capacidade de permanecer alguns instantes em silêncio diante de nós mesmos.

Postar um comentário

José Fagner. Theme by STS.