Uma criança para diante de um animal empalhado num museu. O bicho conserva os dentes, as manchas da pele, a expressão de quem percebeu alguma coisa entre as árvores. Por alguns segundos, parece vivo. Depois a criança se aproxima do vidro e descobre que os olhos são de resina. O que está ali pertence ao animal, mas já não é o animal.
Com o passado acontece algo parecido. Restam palavras, leis, poemas, objetos. Nós os reconhecemos e, por isso, acreditamos compreendê-los. Um grego antigo dizia “amor”; nós também dizemos. A coincidência nos tranquiliza. Só que uma palavra pode atravessar os séculos enquanto as relações que lhe davam sentido desaparecem. Olhamos através do vidro e, muitas vezes, encontramos o reflexo do nosso próprio rosto.
O Banquete, de Platão, é um bom lugar para experimentar esse desconforto. Seus personagens discutem o amor com uma desenvoltura que surpreende quem aprendeu a imaginar a Antiguidade como um salão de estátuas austeras. Homens falam do desejo por homens. Isso não faz deles defensores de uma liberdade sexual parecida com a nossa. A sociedade que produziu o diálogo distribuía prestígio e poder de maneira profundamente desigual. Mulheres, escravizados e jovens ocupavam posições que não podem ser apagadas em nome de uma suposta tolerância grega.
Michel Foucault chamou atenção para uma dificuldade decisiva: os antigos não organizavam a experiência sexual segundo as identidades que hoje usamos para falar de nós mesmos. Seria igualmente enganoso, porém, trocar uma simplificação por outra e imaginar que todas as relações obedeciam a uma única regra. Havia diferenças entre cidades, épocas, costumes e posições sociais. O que podemos afirmar com segurança é mais modesto e mais incômodo: uma prática que nos parece familiar podia existir dentro de uma concepção de pessoa inteiramente diversa da nossa.
Essa diferença importa quando saímos de Platão e abrimos o Levítico. Comecemos pela frase: “Com homem não te deitarás como se fosse mulher”. Ela costuma entrar nas discussões públicas como uma sentença pronta, retirada de um tribunal que ainda estivesse em funcionamento. De um lado, há quem a leia como proibição aplicável, sem mediações, a qualquer relação entre homens. De outro, quem procure demonstrar que ela se refere exclusivamente à violência ou ao abuso. As duas respostas têm uma vantagem sedutora: dispensam a convivência com a dúvida.
O capítulo em que a frase aparece estabelece regras para uma comunidade que busca se distinguir dos povos ao redor. Trata de parentesco, casamento, práticas sexuais, culto e pureza. É possível discutir o que cada proibição significava para quem a escreveu e para quem a ouviu pela primeira vez. Já é muito mais difícil garantir que conhecemos, sem lacunas, todas as situações que seus autores tinham em mente. O texto não descreve um casal contemporâneo que divide as contas, visita parentes no domingo e discute quem deixou a louça na pia. Tampouco explica, por si só, que condenava apenas relações violentas. Entre o mundo do texto e o nosso existe uma distância que nenhuma frase isolada consegue eliminar.
Comunidades de fé leem seus textos por meio de tradições, interpretações e escolhas morais feitas no presente. Por isso podem chegar a conclusões distintas sobre a mesma passagem. A investigação histórica oferece elementos para a conversa; ela não substitui a responsabilidade de dizer o que consideramos justo hoje. Às vezes, citar os antigos é uma maneira de evitar que essa responsabilidade recaia sobre nós.
A literatura sabe alguma coisa sobre o custo de viver sob uma palavra alheia. Em Diorama, de Carol Bensimon, uma mulher retorna às lembranças de infância e a um caso de morte que marcou sua família. Ao reconstruir aquela história, encontra também o peso que a homossexualidade tinha no ambiente em que cresceu. O passado recente surge com suas ameaças muito concretas: a vergonha pública, a suspeita, a violência, o medo da aids. Uma pessoa podia ser reduzida a um nome dito em voz baixa por outros.
Poucas décadas depois, certas vidas já podem ser narradas de outra forma, embora essa mudança esteja longe de alcançar todos os lugares e todas as pessoas. O desejo continua sendo motivo de expulsão de casa, agressão e silêncio. Também pode ser um fato da vida sobre o qual se conversa à mesa. A história dos sentimentos avança assim, de maneira desigual. O que ontem parecia uma condenação inevitável hoje pode ser lembrado como uma crueldade aprendida. E ninguém que viveu sob aquela condenação recupera os anos que perdeu.
Talvez por isso seja tão tentador procurar um passado que nos dê razão. Há quem convoque os gregos como testemunhas de uma liberdade exemplar; há quem convoque a Bíblia para encerrar qualquer discussão. Mas o passado resiste aos dois usos. A admiração entre guerreiros da Ilíada, a intimidade de Gilgamesh e Enkidu, o afeto entre homens que atravessa tantas histórias: nada disso autoriza transformar personagens antigos em contemporâneos nossos. Também não permite fingir que as culturas que admiramos foram construídas apenas por homens indiferentes uns aos outros.
Há uma pergunta menos confortável escondida nessa disputa. Que tipos de vínculo ensinamos os homens a valorizar? Por muito tempo, prestígio, coragem, inteligência e autoridade foram qualidades que eles aprenderam a procurar sobretudo em outros homens. Às mulheres couberam, com frequência, o cuidado da casa, a reprodução, a devoção e a obrigação de compreender. Isso descreve uma educação sentimental cujos efeitos ainda reconhecemos: homens capazes de confiar a um amigo seus projetos, seus medos e sua admiração, mas incapazes de conceder à mulher com quem vivem a mesma condição de interlocutora.
A questão se perde quando a tratamos como uma revelação sobre desejos secretos. Ela diz respeito também à distribuição do respeito. Quem recebe nossa atenção mais séria? A opinião de quem pode nos contrariar? Com quem imaginamos uma vida intelectual, uma aventura ou um futuro? Essas perguntas alcançam muito mais gente do que qualquer disputa sobre uma palavra do Levítico.
No fim da visita ao museu, as luzes se acendem. A criança vê a costura na pele do jaguar, a paisagem pintada atrás dele, o vidro que antes quase desaparecia. A cena perde a ilusão de vida, mas ganha a possibilidade de perceber como foi construída. Com os livros antigos, é um bom começo. Precisamos deles justamente porque não são espelhos fiéis. Quando deixamos que conservem sua estranheza, eles nos ajudam a enxergar as costuras do mundo em que vivemos.
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