Durante anos, podemos recordar uma discussão conservando somente as palavras que nos feriram. A frase cruel que dissemos em resposta desaparece; o rosto de quem nos ouviu perde a nitidez; as consequências se acomodam numa região da memória que raramente visitamos. Quando contamos o episódio, já sabemos onde colocar a pausa, qual detalhe destacar, em que momento declarar que tivemos paciência demais. Quem nos escuta encontra uma história organizada, enquanto nós encontramos mais uma oportunidade de acreditar nela. Uma parte considerável daquilo que chamamos de identidade se sustenta nesse trabalho silencioso de edição.
A recomendação de Marco Aurélio para que despertemos e vejamos com os olhos abertos ameaça essa organização. Levá-la a sério exigiria revisitar os acontecimentos que usamos para provar nossa inocência, devolver aos outros as palavras que lhes retiramos, reconhecer as vantagens que recebemos enquanto denunciávamos apenas as injustiças sofridas. Podemos descobrir que nossa firmeza incluía crueldade, que nossa prudência protegia uma covardia antiga, que algumas renúncias foram impostas pelo medo e posteriormente descritas como escolhas. A lucidez cobra também aquilo que já não podemos corrigir.
Há um sofrimento particular em compreender tarde. Quem percebe a própria violência depois de perder alguém não dispõe necessariamente de uma segunda conversa. Quem reconhece o amor que recebeu pode encontrar uma casa vazia, um número de telefone desativado, objetos cuja permanência parece ofensiva diante da ausência de seu dono. O entendimento chega, mas a pessoa a quem ele poderia servir já morreu. Continuamos com a capacidade de formular o pedido de perdão e sem qualquer possibilidade de entregá-lo. A consciência, tão frequentemente celebrada como conquista, pode nos condenar a viver com uma frase que ninguém mais ouvirá.
Também a realidade exterior oferece pouco conforto a quem decide examiná-la. O sofrimento distribui-se sem preocupação com o mérito; a bondade não assegura proteção; a inteligência pode trabalhar com extraordinária eficiência a serviço da brutalidade. Pessoas honestas adoecem, crianças morrem, homens responsáveis fracassam, oportunistas envelhecem cercados de reconhecimento. Acompanhamos essas ocorrências durante uma vida inteira e ainda procuramos, em cada nova perda, algum mecanismo secreto que preserve a justiça do conjunto. Precisamos desse mecanismo para continuar acreditando que o cuidado terá recompensa e que a crueldade encontrará seu castigo. Os acontecimentos, entretanto, prosseguem sem se comprometer com nossa necessidade de equilíbrio.
A literatura nos coloca diante desse desamparo com uma proximidade difícil de suportar. Uma notícia permite que passemos ao assunto seguinte. Num romance ou num poema, podemos permanecer durante horas junto de alguém que caminha para uma desgraça. Conhecemos seus hábitos, suas hesitações, a maneira como ama, o pequeno futuro que imaginava para si. A morte que chega ao final encontra em nós uma intimidade já construída. Fechamos o livro sabendo que aquela existência foi inventada, mas o sofrimento experimentado durante a leitura pertence à nossa vida. Por alguns instantes, perdemos a facilidade de aceitar como inevitável aquilo que, visto de longe, caberia numa estatística.
Na Ilíada, a cólera de Aquiles possui razões que podemos compreender. Sua honra foi atingida por Agamêmnon, e o poder do chefe tornou-se instrumento de humilhação. Aquiles sabe o valor que possui entre os guerreiros e se recusa a aceitar o tratamento recebido. Até aí, podemos acompanhá-lo com uma satisfação quase íntima: alguém finalmente enfrenta a arrogância de quem manda. Mas o poema nos obriga a permanecer depois desse primeiro assentimento. Outros homens morrem enquanto ele sustenta a recusa. A ofensa continua sendo real, assim como os cadáveres que se acumulam ao redor dela.
Reconhecer essa coexistência exige condenar o orgulho de um personagem, mas vai além. Nós também conhecemos o prazer de possuir uma razão que autoriza a dureza. Uma injustiça sofrida pode tornar-se patrimônio moral, um crédito que imaginamos poder gastar indefinidamente. Passamos a exigir dos outros a compreensão que já não lhes oferecemos; ferimos com a segurança de quem se considera ferido primeiro. E, quanto maior o dano produzido por nossa reação, mais precisamos defender a história inicial. Admitir o excesso significaria olhar para aqueles que atingimos e reconhecer que nossa dor lhes foi imposta como destino.
A morte de Pátroclo rompe a imobilidade de Aquiles, mas sua volta ao combate amplia a devastação. Ele mata Heitor e ultraja seu corpo. A perda do amigo não lhe concede uma compreensão imediata da perda alheia. Seu sofrimento alimenta o desejo de fazer sofrer. Homero acompanha essa violência sem oferecer ao leitor a tranquilidade de acreditar que a dor sempre purifica. Podemos atravessar uma desgraça e sair dela mais cruéis, mais encerrados em nós mesmos, mais dispostos a cobrar de desconhecidos uma reparação impossível.
Heitor, por sua vez, carrega responsabilidades que não o salvarão. Seu vínculo com Troia, com Andrômaca, com o filho, torna a perspectiva da derrota ainda mais terrível. Ele possui algo a perder e consegue imaginar parte dessa perda. Mesmo assim, continua preso às exigências da guerra, ao olhar dos outros, à vergonha que associa ao recuo. A coragem convive com uma ordem coletiva que consome seus homens e prepara a ruína de suas famílias. Sua morte deixa Andrômaca entregue a um futuro contra o qual o amor de ambos já não pode agir.
Ler essas vidas não assegura que saberemos conduzir a nossa. Podemos conhecer Homero, reconhecer a complexidade de seus personagens e continuar humilhando alguém numa conversa banal. Podemos escrever páginas delicadas sobre o sofrimento humano e ser incapazes de escutar quem mora conosco. A distância entre compreensão e conduta atravessa também os leitores mais atentos. Os livros aumentam aquilo que somos capazes de perceber; a decisão de suportar essa percepção, sobretudo quando ela nos acusa, continua sendo nossa. Usamos até a cultura para aperfeiçoar as desculpas.
A exigência mais dolorosa da lucidez é abandonar a expectativa de encontrar, sob todas as versões que fabricamos, um ser finalmente íntegro. Ao retirar as explicações convenientes, podemos descobrir desejos contraditórios, ressentimentos persistentes, gestos de generosidade misturados à vontade de reconhecimento. Podemos amar alguém e invejá-lo, ajudá-lo e esperar gratidão, desejar sua liberdade e sofrer quando ela nos exclui. O exame de si avança por esse terreno instável. Cada descoberta diminui um pouco a autoridade com que julgávamos a vida dos outros, embora permaneça intacta a necessidade de responder pelo que fizemos.
Perto do fim da Ilíada, Príamo entra na tenda de Aquiles para pedir o corpo de Heitor. O velho rei se aproxima do homem que matou seu filho e beija suas mãos. Nenhuma explicação torna esse gesto menos terrível. Príamo precisa tocar o responsável por sua perda porque deseja devolver ao morto o cuidado que ainda lhe pode oferecer. Diante dele, Aquiles é levado a recordar o próprio pai. Os dois choram: um por Heitor, o outro por Pátroclo e pelo pai distante. A guerra permanece ao redor da tenda. Troia continua ameaçada. O encontro não revoga uma única morte.
Durante aquele choro, porém, Aquiles consegue acolher uma dor que sua cólera havia expulsado. O corpo de Heitor será devolvido. Haverá tempo para os ritos, para o lamento, para que os vivos se despeçam. A grandeza desse episódio cabe em ações concretas: levantar o velho, oferecer-lhe alimento, permitir que leve o filho para casa. Depois de tanta força empregada para destruir, as mãos de Aquiles voltam a servir ao cuidado.
Penso em quanto tempo podemos levar até conseguir ouvir alguém sem preparar uma resposta, sem buscar em suas palavras uma confirmação das injustiças que sofremos. Às vezes, convivemos durante anos com uma pessoa e sabemos muito pouco sobre o que ela sente, porque estamos ocupados demais com aquilo que esperamos dela. Lembramos a frase que nos feriu, a ausência num momento difícil, o pedido que ficou sem resposta. Aos poucos, tudo o que essa pessoa faz passa a ser julgado a partir daquela lembrança. Mesmo quando ela tenta se aproximar, suspeitamos; quando se afasta, encontramos mais uma prova de que tínhamos razão. Podemos chegar ao fim de uma relação sem perceber quanto contribuímos para tornar impossível qualquer entendimento.
Com os mortos, essa obstinação adquire uma tristeza ainda maior. Continuamos retomando conversas, corrigindo mentalmente o que dissemos, acrescentando os argumentos que nos faltaram. Em alguns dias, defendemos nossa conduta como se eles ainda pudessem nos acusar; em outros, compreendemos alguma coisa que, quando estavam vivos, não tivemos paciência para escutar. Lembramos o cansaço em sua voz, uma tentativa desajeitada de carinho, o silêncio que interpretamos como indiferença. Gostaríamos de perguntar se era isso mesmo, de contar o que agora conseguimos perceber. Mas ficamos sozinhos com a dúvida e com as palavras que teriam feito alguma diferença quando ainda havia alguém para recebê-las.

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