A cada semestre faço uma aposta.
Escolho um aluno ou uma aluna para acompanhar de perto durante algum tempo. Converso pelos corredores, observo as leituras, procuro descobrir aquilo que desperta entusiasmo. Às vezes surge a oportunidade de orientar um projeto; em outras ocasiões basta uma conversa longa na cozinha. Meu objetivo costuma ser o mesmo: incentivar essa pessoa a escrever um livro, produzir um documentário, criar um programa de rádio ou transformar uma boa ideia em projeto de mestrado.
Nunca encontrei um critério realmente seguro para essa escolha.
Há estudantes que despertam enorme expectativa e desaparecem poucos meses depois da formatura. Outros descobrem interesses completamente diferentes dos meus. Alguns preferem seguir o caminho indicado por outro professor. A vida universitária também possui suas distâncias, seus desencontros e seus silêncios.
Ainda assim continuo escolhendo alguém.
Talvez exista uma dose considerável de vaidade nisso. George Steiner observava que ensinar significa, antes de tudo, assumir responsabilidade pelo futuro intelectual de outra pessoa. Gosto de imaginar que, em alguma medida, participei da formação de alguns alunos. Ignoro se isso aconteceu de fato. Certas ilusões cumprem uma função semelhante à da esperança: permitem que continuemos fazendo amanhã aquilo que a experiência recomendaria abandonar.
Hoje, aproveitando o feriado de São João, resolvi procurar Aldair e May, dois estudantes de Letras do Campus XXI da UNEB.
Aldair - aluno que acaba de lançar um livro sob minha orientação - já estava entregue aos festejos juninos e ficou para outra oportunidade. May aceitou meu convite para tomar um açaí na Praça Ruy Barbosa.
Passei antes pela Casa dos Estudantes, onde vivem muitos alunos vindos de outras cidades. Fui na minha velha cinquentinha, essa bicicleta motorizada que insisto em tratar como motocicleta. Diogo e Raquel apareceram na janela quando passei por lá. Seguimos então para a casa de Vicente, onde costumo deixar a moto antes de descer até a praça.
Vicente preparava um bolo.
Disse que o forno ainda precisava de mais alguns minutos e resolveu que nos encontraria tão logo a massa terminasse de assar.
Sentamos debaixo de uma árvore. Eu pretendia descobrir um pouco mais sobre os interesses de May. Sempre acredito que existe um instante decisivo na vida de quase todo estudante: aquele momento em que alguém leva seus sonhos a sério antes mesmo que ele próprio consiga fazê-lo.
Foi quando um carro branco passou lentamente pela praça.
Quem acenava era Adenilson, embora quase ninguém o chame por esse nome. Para todos continua sendo Chita - esse é, provavelmente, algum apelido racista que ele recebeu em décadas passadas.
Ele estacionou, sentou-se ao nosso lado e entrou na conversa como fazem os velhos amigos que dispensam apresentações. Liguei para Vicente, depois de muita demora, avisando que Chita estava conosco. Ele ainda aguardava o bolo assar. Demorou um pouco, mas juntou-se a nós.
Pouco depois apareceu Charles, uma dessas figuras improváveis que toda cidade pequena produz e conserva com carinho. A conversa rapidamente perdeu qualquer direção. Literatura, política, histórias da universidade, causos antigos, piadas privadas e lembranças de gente que já morreu começaram a disputar espaço ao mesmo tempo.
Olhei algumas vezes para May.
Imaginei que aquela sucessão de personagens e assuntos devesse parecer um encontro de excêntricos.
Talvez fosse exatamente isso.
As universidades costumam ser lembradas pelas aulas, pelos congressos e pelas bibliotecas. Tenho a impressão de que sua verdadeira alma circula nesses encontros improvisados, onde ninguém pretende ensinar coisa alguma e, ainda assim, todos aprendem alguma coisa. Michael Oakeshott dizia que educar consiste em inserir alguém numa grande conversa iniciada muito antes do nosso nascimento. Talvez aquela tarde representasse precisamente isso: uma conversa sem pauta, sem método e sem qualquer compromisso com a eficiência.
Em determinado momento brinquei que conseguia sentir, dali mesmo, o cheiro do bolo que Vicente deixara no forno.
Voltamos a sua casa.
O aroma realmente havia tomado conta da cozinha.
Vicente serviu May de um pedaço do seu bolo. Aparentemente estava intragável, mas ela não reclamou. Preferi ficar olhando os dois enquanto continuávamos conversando.
Na volta para casa, depois de levar May de volta, pensei que minha intenção inicial havia ficado pelo caminho.
Depois me ocorreu que talvez tivesse acontecido exatamente o contrário.
A formação de alguém raramente depende de uma grande lição. Ela costuma avançar em pequenos episódios cuja importância só se revela muitos anos depois. Um professor imagina estar oferecendo orientação; o aluno guarda uma conversa, um gesto de confiança, uma tarde qualquer que permaneceu viva na memória quando quase todo o resto já desapareceu.
Continuo escolhendo um estudante a cada semestre porque algumas apostas desafiam qualquer cálculo. A experiência ensina prudência, reduz expectativas e torna o entusiasmo cada vez mais raro. Mesmo assim, basta encontrar uma pessoa realmente disposta a transformar inquietação em trabalho para que todo o ceticismo recue alguns passos. Talvez a esperança nunca tenha sido uma convicção. Sempre me pareceu mais próxima de um hábito. E certos hábitos merecem sobreviver, sobretudo quando o mundo oferece tantos motivos para abandoná-los.

Muito bom!!!
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